Trechos do artigo “A Verdadeira Linda Lovalace”, de Gloria Steinem

26/12/2006 at 13:46 (Gloria Steinem)

”’Trechos do artigo A Verdadeira Linda Lovalace:”’

Lembra-se de Garganta Profunda? Aquele filme que transformou o pornô em chique… Embora tenha sido feito em 1972 como filme de segunda que custou apenas 40 mil dólares e levou uns poucos dias para ser realizado, ele terminou a década com uma renda de aproximadamente 600 milhões de dólares… Esta cifra inclui o filme em si, as seqüências, as fitas cassetes, as camisetas, os adesivos de carro e os acessórios sexuais. Na verdade, o filme foi brindado pela mídia com uma aprovação divertida e passou a fazer parte da nossa linguagem e da nossa consciência, quer tenhamos visto o filme ou não. Dos seríissimos jornalistas do caso Watergate… aos vulgares pornocratas da revista Screw… transformaram este filme de mau gosto numa piada suja universal e numa central de lucros internacional.

No coração desta piada suja e altamente rentável encontrava-se Linda Lovelace (nascida Linda Boreman)… Ela oferecia aos espectadores a excitante ilusão de que até mesmo a vizinha da casa ao lado talvez adorasse ser objeto de atos sexuais à moda pornô.

Usar Linda Lovelace foi idéia de Gerry Damiano, diretor e roteirista de Garganta Profunda. “A coisa mais incrível a respeito de Linda… é que ela ainda tem uma aparência doce e inocente”. Mesmo assim, Peraino (produtor) reclamou que Linda não era a “loura peituda” que ele imaginara para o filme. Ele continuou a reclamar até mesmo depois que a mandaram servi-lo sexualmente.

Na verdade, foi ao assistir Linda atuar publicamente como prostituta que Damiano teve a idéia inicial de Garganta Profunda… Relaxando os músculos da garganta, ela aprendera a receber o mergulho profundo de um pênis sem engasgar; para ela, uma desesperada técnica de sobrevivência, mas para os clientes uma constante fonte de divertimento e novidade.

…Tratou-se de um instrumento educacional que a teoria freudiana não teve.

Literalmente milhões de mulheres foram levadas aos cinemas por seus namorados ou maridos (sem contar as prostitutas, levadas pelos cafetões) para aprender o que uma mullher poderia fazer para satisfazer um homem se ela realmente quisesse. Este valor instrutivo parece ter sido o principal motivo da popularidade do filme…
Ela está ali porque quer. Quem a está forçando? Olha só como ela sorri. Está vendo só como mulheres de verdade gostam disso?

Oito anos depois, Linda deu uma resposta, humilhante e dolorosa, para a pergunta em Ordeal (Provação), sua autobiografia.

…Nora Ephron (…) ficou apavorada diante de uma cena (…) e conseguiu uma entrevista telefônica com Linda Lovelace. “Eu não tenho inibição alguma em relação ao sexo. Eu só espero que todo mundo que for ver o filme… perca um pouco das suas inibições”.

E assim Nora escreveu um artigo que Linda fosse rainha do pornô por vontade própriae que vivesse feliz… Ela descreveu sua reação como sendo de uma “feminista puritana que perdera o senso de humor ao assistir um filminho de sacanagem”.

O que ela não sabia era que Linda, mais tarde, incluiria esta resposta na lista das muitas ditadas por Chuck Traynor (seu marido) para ocasiões jornalísticas como aquela. Ele a castigava se mostrasse qualquer emoção inaceitável (quando, por exemplo, ela chorou ao ser currada por cinco homens, num quarto de hotel, fazendo com que um dos clientes se recusasse a pagá-la). Na verdade, ela fora espancada e estuprada tantas vezes e com tal regularidade que sofreu danos retais além de lesões permanentes às veias da perna.

O que Nora não sabia era que Linda também escreveria a respeito de suas 3 tentativas de fuga e dos 3 retornos forçados a uma vida de servidão sexual…

… O livro de Linda documenta mais de 2 anos de medo, sadismo e prostituição forçada. Traynor disse que as acusações de Linda eram “tão ridículas que eu não posso levá-las a sério”. Ele também disse que “quando eu comecei a sair com Linda ela era muito tímida, ficava chocada em ver um homem nu… eu criei Linda Lovelace“.

O que Linda conta desta criação inclui uma arma apontada para a sua cabeça e ter de trabalhar vigiada através de um buraco na parede para que ela não escapasse e ter uma mangueira d’água enfiada no ânus se se recusasse a oferecer divertimentos tais como despir-se em restaurantes e para motoristas em auto-estrada.

… Mas Linda conta ter recusado uma proposta de um milhão de dólares para estrelar um outro filme como Garganta Profunda. (Por esta filmagem, Linda recebeu mil e duzentos dólares que, como dinheiro ganho como prostituta, ela jamais viu.) “Eu não faria nada daquilo outra vez”, ela afirma. “Nem se me dessem 50 milhões de dólares”.

Um outro motivo para escrever Ordeal… um cartão postal escrito por uma mulher que disse ter tido coragem de fugir depois de ver Linda na televisão. “As mulheres precisam que alguém lhes dê coragem para fugir, de alguém que lhes diga que é possível recobrar a auto-estima”…

Ela diz que escapou fazendo Traynor acreditar que poderia confiar nela, um pouquinho mais a cada vez, até que foi deixada, sem vigias, num quarto de hotel, durante os ensaios para a versão teatral de Linda Lovelace.

… Quando ela começou a dar suas próprias respostas para as perguntas e a tentar explicar os anos de coação, descobriu que os jornalistas tornavam-se relutantes em publicar suas palavras. Sua história era deprimente, não tinha nada de glamourosa ou excitante. Como ela havia passado de mão em mão como uma moeda sexual, às vezes entre homens famosos, havia também o medo de processos.

Foi só 1978, ao ser entrevistada por Mike McGrady,(…) que sua história veio a público. Com o intuito de convencer um editor de que a história tinha credibilidade, ele a submeteu a um interrogatório de 11 horas com um detector de mentiras, realizado pelo ex-chefe de poligrafia da procuradoria de Nova York, um teste que incluiu um enorme número de detalhes e uma brutal reinquisição. Mesmo com esses resultados… diversas editoras recusaram o manuscrito.

E assim nos perguntamos: será que um prisioneiro político, homem, contando uma história parecida, teria tanta dificuldade em ser acreditado? Ordeal ataca o mito do masoquismo feminino, que insiste em que as mulheres gostam de ser dominadas sexualmente e de sentir dor, muito embora a prostituição e a pornografia sejam indústrias construídas tendo este mito como base.

Para divulgar seu livro, Linda vai ao programa de televisão de Phil Donahue…

Ela descreve a sensação de isolamento, de ser controlada a tal ponto que não podia ir ao banheiro sem a permissão de Traynor.Não tinha escolha. Podia ter acontecido com qualquer uma. Ela diz isso simplesmente e repete inúmeras vezes, e afinala mensagem parece penetrar nas mentes de muitas mulheres presentes na platéia. Mas, no caso de algumas, a mensagem jamais penetra. Donahue continua a fazer perguntas sobre a sua infância, sobre a sua história pessoal. É como se ele estivesse perguntando “O que, na sua história pessoal, a levou a um campo de concentração?”.

Ninguém pergunta como podemos parar de criar homens como o Chuck Traynor da descrição de Linda. Ou o que levou milhares de pessoas a assistir Garganta Profunda.

””’(A Verdadeira Linda Lovalace. in Steinem, Gloria. Memórias da Transgressão: Momentos da História da Mulher no século XX)””’

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