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	<title>Feminista &#187; Gloria Steinem</title>
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		<title>Feminista &#187; Gloria Steinem</title>
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		<title>Eu fui coelhinha da Playboy</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Feb 2009 01:35:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Feminista</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Aviso: este post é uma transcrição do artigo de Gloria Steinem intitulado &#8220;Eu fui coelhinha da Playboy&#8221;, publicado originalmente em 1963. Ele faz parte do livro &#8220;Memórias da Transgressão&#8220;. Se preferir, leia o blog com o artigo em formato de diário.
Aceitei uma matéria munida de um enorme diário e o seguinte anúncio:

GAROTAS:
Será que as Coelhinhas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=feminista.wordpress.com&blog=637095&post=19&subd=feminista&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><strong><u>Aviso:</u> este post é uma transcrição do artigo de Gloria Steinem intitulado &#8220;Eu fui coelhinha da Playboy&#8221;, publicado originalmente em 1963. Ele faz parte do livro &#8220;<a href="http://feminista.wordpress.com/2007/06/14/memorias-da-transgressao/">Memórias da Transgressão</a>&#8220;. Se preferir, <a href="http://eufuicoelhinhadaplayboy.wordpress.com/">leia o blog com o artigo em formato de diário</a>.</strong></p>
<p><em>Aceitei uma matéria munida de um enorme diário e o seguinte anúncio:</em></p>
<blockquote><p>
GAROTAS:<br />
Será que as Coelhinhas da Playboy Realmente Têm Empregos Glamourosos, Conhecem Gente Famosa e Ganham Bem?</p>
<p>Sim, é verdade! Jovens atraentes podem ganhar entre US$ 200 e US$ 300 por semana no fabuloso Playboy Club de Nova York, deleitar-se com a glamourosa e excitante aura do show business e ter a oportunidade de viajar para os outros Playboy Clubs espalhados pelo mundo afora. Quer estejam servindo drinques, tirando fotos ou recebendo nossos convidados à porta, o Playboy Club é o palco e as Coelhinhas as estrelas.</p>
<p>O charme e a beleza de nossas Coelhinhas foram louvados na Time, na Newsweek, na Pageant, e o apresentador Ed Sullivan denominou o Playboy Club &#8220;a maior e mais nova atração do show business&#8221;. O Playboy Club é hoje o local mais badalado de Nova York. </p>
<p>Se você é bonita e simpática, tem entre 21 e 24 anos, solteira ou casada, este anúncio é para você. Não é necessário experiência anterior.</p>
<p>Inscreva-se pessoalmente em ENTREVISTAS ESPECIAIS, sábado e domingo, 26 e 27 de janeiro, das 10 às 15 horas. Favor trazer maiô ou malha de ginástica.<br />
THE PLAYBOY CLUB<br />
East 59th Street n° 5
</p></blockquote>
<p><span id="more-19"></span></p>
<p><b>QUINTA-FEIRA, 24 DE JANEIRO DE 1963</b></p>
<p>Decidi que me chamarei Marie Catherine Ochs. Trata-se, que meus antepassados me perdoem, de um sobrenome de família. É do meu ramo da família e conheço bem suas origens européias. Além do mais soa quadrado demais para ser falso.</p>
<p><strong>SEXTA-FEIRA, 25</strong></p>
<p>Passei a tarde inteira inventando uma história pessoal para Marie. Compartilhamos o mesmo apartamento, o mesmo telefone e as mesmas medidas. Embora ela seja quatro anos mais nova do que eu (eu já passei do limite de idade para ser Coelhinha), Marie e eu comemoramos nossos aniversários no mesmo dia e estudamos na mesma escola e na mesma faculdade. Mas ela não se deixou escravizar pelos estudos — não, não Marie. Depois de um ano ela me largou, me empurrando pelo caminho que me levaria a um bacharelado, e embarcou num vôo <em>charter</em> para a Europa. Ela não tinha um centavo, mas curtos períodos trabalhando como garçonete em Londres, como dançarina em Paris e secretária em Genebra foram o bastante para bancar seus verões de rata de praia e suas outras escapulidas. Ela voltou para Nova York no ano passado e trabalhou temporariamente como secretária. Três amigos em comum concordaram em dar fortes recomendações pessoais. Todos que a conhecem a adoram.</p>
<p>Amanhã é o grande dia. Marie sairá deste caderno pela primeira vez e entrará no mundo real. Estou de saída para comprar uma malha para ela.</p>
<p><strong>SÁBADO, 26</strong></p>
<p>Hoje vesti as roupas mais teatrais que pude encontrar, enfiei a malha numa bolsinha e caminhei até o Playboy Club. E impossível não vê-lo. O discreto prédio de escritórios e a galeria de arte que ocupavam o local foram transformados num reluzente retângulo de vidro. O interior acarpetado de laranja é claramente visível, de fora, com uma moderníssima escadaria flutuante espiralando clube acima pelo centro. O efeito geral é alegre e surpreendente.</p>
<p>Atravessei em direção ao clube onde um homem de meia-idade, vestindo uniforme de guarda particular, sorriu e chamou: </p>
<p>- Pst, pst, pst, pst, Coelhinha&#8230; — Ele ergueu o dedão e apontou para a porta de vidro à esquerda. — As entrevistas são lá embaixo, no Playmate Bar.</p>
<p>O interior do clube estava iluminado com tal dramaticidade que levei alguns segundos para me dar conta de que estava fechado e vazio. Desci uma pequena escadaria e fui cumprimentada por uma tal Srta. Shay, uma mulher magra, de seus trinta anos, que encontrava-se atrás de uma escrivaninha no bar escuro. </p>
<p>— Coelhinha? —perguntou, asperamente. — Sente-se ali, preencha este formulário e tire o casaco. — Pude ver que duas das mesas já estavam ocupadas por outras garotas curvadas sobre o lápis. Olhei para elas com curiosidade. Eu chegara bem no meio do horário de entrevistas, esperando ver o maior número possível de candidatas, mas havia apenas três. — <em>Tire o casaco</em> — a Srta. Shay repetiu. Ela me examinou atentamente enquanto eu o fazia. Uma das garotas se levantou e caminhou até a escrivaninha, os saltos altos de acrílico estalando contra seus calcanhares, emitindo segurança e charme.</p>
<p>— Me diga uma coisa — ela disse. — Você vai querer as medidas com ou sem sutiã?<br />
— Com — respondeu a Srta. Shay.<br />
— Mas eu sou maior sem — a garota contrapôs.<br />
— Está certo — disse a Srta. Shay, um tanto enfadada. — Sem.</p>
<p>Outras duas garotas desceram as escadas. Tinham uma aparência de frescor, não usavam maquiagem.<br />
— Coelhinhas? — indagou a Srta. Shay.<br />
— Não exatamente — disse uma, mas a outra pegou uma ficha. Os cabelos longos e os mocassins denunciavam o status de universitárias. </p>
<p>O formulário de solicitação de emprego era curto: endereço, telefone, medidas, idade e os três últimos empregos. Terminei de preenchê-lo e resolvi ganhar tempo lendo um prospecto intitulado SEJA COELHINHA DO PLAYBOY CLUB! O folheto continha, ern sua maioria, fotos: uma foto em grupo mostrava Coelhinhas &#8220;escolhidas de todos os cantos dos Estados Unidos&#8221; rodeando &#8220;o presidente do Playboy Club e editor da revista Playboy, Hugh M. Hefner&#8221;; um close de uma Coelhinha servindo um drinque a Tony Curtis &#8220;um devoto do Playboy Club que em breve estrelará um filme de Hugh M. Hefner intitulado, apropriadamente, Playboy&#8221;; duas Coelhinhas sorridentes ao lado de Hugh M. Hefner no &#8220;Playboy Show, exibido em cadeia nacional&#8221;; Coelhinhas distribuindo exemplares da revista Playboy num hospital para veteranos de guerra &#8220;em um dos inúmeros projetos comunitários dignos dos quais participam as Coelhinhas&#8221;; uma Coelhinha loura, de pé, diante de uma senhora de aparência maternal, a &#8220;Mamãe Coelha&#8221;, oferecendo &#8220;conselhos pessoais&#8221;; e na última página uma garota de biquíni, agachada no convés de um iate com a bandeira com o coelhinho da Playboy. O texto: &#8220;Quando você se tornar uma Coelhinha, seu mundo será alegre, divertido e sempre excitante&#8221;. Citava um salário médio de duzentos dólares por semana.</p>
<p>Mais uma garota desceu as escadas. Ela usava óculos de armação azul e um casaco muito menor do que ela. Eu a observei enquanto perguntava, nervosa, à Srta. Shay se o clube aceitava garotas de dezoito anos.<br />
— É claro que sim — respondeu a Srta. Shay. — Só não podem trabalhar no turno da meia-noite.</p>
<p>Entregou uma ficha para a garota, olhou as pernas gorduchas e não pediu que tirasse o casaco. Mais duas garotas entraram no bar, uma vestindo legging rosa e a outra legging roxo.<br />
— Nossa, esse lugar é um estouro — disse Rosa.<br />
— Se achou isso aqui um estouro, devia ver a casa de Hugh Hefner em Chicago — disse Roxa. A Srta. Shay olhou para elas com aprovação.<br />
— Não tenho telefone — disse Armação Azul com tristeza. — Posso dar o telefone do meu tio? Ele também mora no Brooklyn.<br />
— Pode, então — disse a Srta. Shay. Ela pediu para que me aproximasse, indicou um local a uns três metros de sua escrivaninha e pediu para que ficasse ereta. Fiquei.<br />
— Eu quero tanto ser coelhinha — disse Armação Azul. — Li a respeito disso numa revista, lá na escola.<br />
A Srta. Shay me perguntou se eu realmente tinha 24 anos.<br />
— Está muito velha — ela avisou. Disse a ela ter achado que passaria por um triz. Ela concordou com a cabeça.<br />
— Meu tio passa o dia inteiro fora — disse a garota —, mas eu irei para a casa dele e passarei o dia inteiro ao lado do telefone.<br />
— Faça isso então, querida — disse a Srta. Shay e virou-se para mim: &#8211; Tomei a liberdade de marcar uma hora para você na quarta- feira às seis e meia. Entre pela entrada de serviço e vá até o sexto andar. Procure a Srta. Burgess, a Mamãe Coelha. — Concordei e ela acrescentou: — Você tem certeza de que não se inscreveu antes? Uma outra Marie Ochs veio aqui ontem. Fiquei perplexa. Como poderia Marie ter escapado das páginas de meu caderno? Eu tive uma fantasia de trinta segundos baseada em <em>Pigmalião</em>. Ou será que havia uma outra Marie Ochs? Possível era, mas não provável. Decidi partir para a valentia.<br />
— Que esquisito — murmurei. — Deve haver algum engano.<br />
A Srta. Shay deu de ombros e sugeriu que eu trouxesse um maiô ou uma malha na quarta.<br />
— Posso ligar para cá? — perguntou Armação Azul.<br />
— Não faça isso, querida — disse a Srta. Shay. — Deixe que <em>nós</em> ligamos para você.</p>
<p>Deixei o clube preocupada com a expectativa de vida de Marie Ochs. Será que eles descobririam tudo? Será que eles já sabiam? Quando cheguei à metade do quarteirão, encontrei as duas universitárias. Estavam encostadas num prédio abraçando o próprio corpo, às gargalhadas. E de repente eu me senti bem melhor a respeito de tudo aquilo. Tudo, talvez, menos imaginar Armação Azul, em estado de alerta, sentada ao lado do telefone do tio.</p>
<p><strong>QUARTA-FEIRA, DIA 30</strong></p>
<p>Cheguei ao clube, pontualmente, às seis e meia e os negócios pareciam estar a todo vapor. Os clientes faziam fila, na neve, para entrar e vários transeuntes encontravam-se do lado de fora, com o rosto colado na vidraça. O ascensorista, um porto-riquenho bonito com jeitão de Rodolfo Valentino, me enfiou no elevador com dois carregadores negros uniformizados, cinco clientes de meia-idade, duas Coelhinhas a caráter e uma matrona robusta vestindo vison. Paramos no sexto andar.<br />
— E aqui que eu fico? — perguntou a matrona.<br />
— É claro, amorzinho — disse o ascensorista. — Se quiser virar Coelhinha.</p>
<p>Risos.</p>
<p>Olhei ao meu redor. Iluminação suave e tapetes macios haviam sido substituídos por blocos de cimento sem pintura e lâmpadas penduradas dos bocais. Havia uma porta marcada OELHINHAS; dava para ver o contorno onde antes houvera um &#8220;C&#8221;. Um aviso, escrito à mão num pedaço de cartolina rasgada, dizia: <em>BATAM!! Por favor, meninas. Dá para cooperar?!!</em> Passei pela porta e entrei num corredor iluminado e cheio.</p>
<p>Duas garotas passaram por mim. Uma vestia apenas a calcinha de um biquíni e a outra vestia meias arrastão de trama delicada e saltos altos lilás. Ambas entraram correndo na sala de figurinos à minha direita, berraram seus nomes, pegaram seus uniformes e voltaram correndo. Perguntei à responsável pela Srta. Burgess.<br />
— Querida, acabamos de lhe entregar um presente de despedida.</p>
<p>Outras quatro garotas saltitaram sala adentro pedindo suas fantasias, golas, punhos e rabinhos. Vestiam meias-calças e salto alto e nada da cintura para cima. Uma delas parou para examinar o quadro no qual havia uma lista de &#8220;Coelhinha da Semana&#8221;. </p>
<p>Dirigi-me à outra extremidade do corredor. Dava para um camarim enorme cheio de armários de metal e diversas fileiras de mesas. Havia bilhetes colados aos espelhos (&#8220;Alguém quer trabalhar no Nível B no sábado?&#8221; e &#8220;Vou dar um festão na quarta em Washington Square, todas as Coelhinhas serão bem-vindas&#8221;). Havia cosméticos espalhados pelas bancadas e três garotas sentavam-se lado a lado colocando cílios postiços com uma concentração de iogue. Parecia uma caricatura do camarim de artistas de teatro de revista. </p>
<p>Uma garota de cabelos muito ruivos, pele muito branca e uma fantasia de Coelhinha de cetim preto deu as costas para mim e aguardou. Entendi que queria que eu puxasse seu zíper, uma tarefa que levou vários minutos de puxa e estica. Era uma garota grandalhona, de aparência um tanto rude, mas a voz que me agradeceu era pequenininha como a de uma criança. Judy Holliday não poderia ter feito melhor. Perguntei a ela a respeito da Srta. Burgess.</p>
<p>— Sei. Ela está no escritório — disse Vozinha de Bebê indicando uma porta de madeira com uma portinhola de vidro. — Só que a nova Mamãe Coelha é Sheralee. </p>
<p>Através do vidro pude ver duas garotas, uma loura e uma morena. Ambas pareciam ter vinte e poucos anos e não eram nada parecidas com a matrona do prospecto. Vozinha de Bebê puxou e esticou mais um pouco.</p>
<p>—Este uniforme não é o meu — explicou. — É por isso que está difícil de colocá-lo. — Ela se afastou estalando os dedos e cantarolando baixinho.</p>
<p>A morena saiu do escritório e se apresentou como a Mamãe Coelha, Sheralee. Eu disse que a confundira com uma Coelhinha. </p>
<p>— Cheguei a trabalhar para o clube quando inaugurou no mês passado — disse. — Mas agora vou substituir a Srta. Burgess. — Ela indicou a loura que experimentava um conjunto bege de três peças, provavelmente seu presente de despedida. — Terá de aguardar um instante, querida.</p>
<p>Eu me sentei.</p>
<p>Às sete eu já tinha assistido a três meninas eriçarem os cabelos até parecerem algodão doce e outras quatro encherem o sutiã com lenços de papel. Até às 19:15, eu já havia conversado com outras duas candidatas a Coelhinha, uma bailarina e uma modelo de meio expediente do Texas. Às 19:30 testemunhei a maior crise da vida de uma Coelhinha que enviara a fantasia para a lavanderia com a aliança de noivado presa com um alfinete pelo lado de dentro. Às 19:40 a Srta. Shay subiu para avisar que &#8220;Não há mais ninguém além de Marie&#8221;. Às oito eu estava certa de que ela esperava pelo gerente do clube para que ele dissesse que haviam descoberto minha verdadeira identidade. Às 20:15 finalmente fui chamada e estava nervosa além da conta.</p>
<p>Esperei enquanto Sheralee olhava minha ficha.<br />
— Você não tem cara de 24 anos.<br />
Bem, acabou por aqui, pensei.<br />
— Parece bem mais jovem.<br />
Sorri, incrédula. Ela tirou diversas polaróides de mim.<br />
— É para os arquivos — explicou. Ofereci a história que eu criara é datilografara com tanto esmero mas ela a devolveu sem nem olhar.<br />
— Não gostamos que nossas garotas tenham histórias — ela disse com firmeza. — Só queremos que você se adeque à imagem da Coelhinha. — Ela me mandou para a sala de figurinos.<br />
Perguntei se devia vestir a malha.<br />
-— Não perca tempo com isso — disse Sheralee. — Queremos ver a imagem da Coelhinha.</p>
<p>A chefe de guarda-roupa mandou que eu me despisse e começou a procurar um uniforme do meu tamanho. Uma garota entrou às pressas com uma fantasia nas mãos, berrando por ela como um soldado ferido talvez pedisse auxílio médico.<br />
— Estourei o zíper — ela chorava. — Espirrei!<br />
— E a terceira vez esta semana — disse a chefe de guarda-roupas.<br />
— Parece até epidemia.<br />
A garota se desculpou, encontrou outra fantasia e saiu.<br />
Perguntei se um espirro realmente podia romper uma fantasia.<br />
— E claro que sim — ela assegurou. — Garotas resfriadas normalmente precisam ser substituídas.</p>
<p>Ela me deu um uniforme de cetim azul. Estava tão apertado que o zíper prendeu na minha pele quando ela foi fechá-lo. Ela me mandou segurar a respiração enquanto tentava outra vez. Após conseguir deu um passo atrás para me examinar com olhos críticos. A fantasia era tão cavada que expunha meu quadril, assim como dez centímetros de bumbum branco. As barbatanas da cintura teriam feito Scarlett O&#8217;Hara desmaiar e a estrutura como um todo fora desenhada para puxar todas as carnes do corpo na direção dos seios. Eu estava certa de que seria perigosíssimo me abaixar.</p>
<p>— Nada mal — declarou a chefe de guarda-roupa e pôs-se a enfiar um imenso saco plástico na parte de cima da fantasia. Colocou uma faixa com orelhinhas de coelha em torno de minha cabeça e um semicírculo de material macio preso com um gancho no local mais arrebitado da parte traseira da fantasia. — Muito bem, querida. Agora coloque os saltos e vá mostrar a Sheralee. Olhei no espelho e a imagem da Coelhinha olhou para mim.<br />
— Você está uma graça — disse Sheralee. — Encoste naquela parede e sorria bem bonito para ver o passarinho.—Ela tirou várias outras fotos com a polaróide. </p>
<p>A ruiva com voz de bebê entrou para avisar que ainda não encontrara uma fantasia que coubesse. Uma minúscula lourinha vestindo cetim lilás tirou o rabinho e se empoleirou na mesa.<br />
— Olha — começou — , não ligo para os deméritos, já recebi cinco. Mas eu não ganho pontos por trabalhar horas extras? Sheralee pareceu desconcertada e dirigiu-se a Voz de Bebê:<br />
— As garotas novas acham que as garotas de Chicago recebem tratamento especial e as mais antigas não treinam as novas.<br />
—Deixa que eu treino estas pestinhas — disse Voz de Bebê. Mas me arruma uma fantasia.<br />
Eu me vesti e esperei. E prestei atenção:<br />
— Ele me deu trinta pratas e eu só fiz comprar cigarros para ele.<br />
— Abaixa aí, meu docinho, e se enfia nesta fantasia.<br />
— Ah, sei lá. Acho que ele fabrica Leite de Magnésia ou coisa parecida.<br />
— Você sabia que tem gente que comete suicídio com estes sacos plásticos?<br />
— Aí o babaca pede Cortinas de Renda. Alguém lá já ouviu falar em Cortinas de Renda?<br />
— Eu disse a ele que nossos rabos eram de asbesto e ele quis queimar o meu para ver se era verdade.<br />
— Semana passada ganhei trinta pratas de gorjeta. Grande coisa. </p>
<p>Sheralee me chamou de volta ao escritório.<br />
— Então você quer ser Coelhinha — ela disse.<br />
— Oh, sim. Gostaria muito — respondi.<br />
— Bem&#8230; — Ela fez uma pausa significativa. — Nós também queremos que seja!<br />
Fiquei perplexa. Não haveria mais entrevistas? Investigações?<br />
— Chegue amanhã às três. Vamos tirar as medidas e pedir para que assine algumas coisas. — Eu sorri e senti uma exultação tola.</p>
<p><em>Descendo as escadas e subindo Fifth Avenue. Saltitante eu vou, sou uma Coelhinha!</em></p>
<p><strong>QUINTA-FEIRA, DIA 31</strong></p>
<p>Agora tenho duas fantasias de Coelhinha: uma de cetim laranja e outra azul-rei. A escolha de cores e a qualidade do cetim são quase as mesmas dos catálogos de material esportivo. Os corpinhos das fantasias, pré-cortados para caber em corpos e seios de tamanhos variados, são experimentados na mesma hora. Aguardei, de pé, no piso de cimento, com os pés descalços e uma calcinha de biquíni. A chefe de guarda-roupa me deu um tapetinho de banheiro. </p>
<p>— Não dá para deixar uma Coelhinha novinha em folha pegar gripe — foi o que disse. Perguntei se ela poderia seguir a linha do meu biquíni; a fantasia que eu experimentara no dia anterior era mais cavada do que qualquer uma que eu vira em fotografias. Ela riu. — Olha, querida, se você acha que aquela estava cavada, devia ver umas que usam por aqui.</p>
<p>A fantasia foi aparada e apertada até estar com cinco centímetros a menos do que minhas medidas em todos os locais, menos no busto.<br />
— Aqui você vai precisar de espaço para enchimento. Quase todo mundo enche. E é aqui que você guarda as gorjetas. Chamam de &#8220;caixa forte&#8221;.<br />
Uma garota de cabelos negros e muito pó-de-arroz, vestindo uma fantasia verde, parou à porta.<br />
— Meu rabinho está caído — ela disse, arrumando-o com um dedo. — Esses malditos clientes não param de puxar.<br />
A chefe de guarda-roupa entregou-lhe um alfinete de fralda.<br />
— E melhor arrumar um rabinho mais limpinho do que este, meu anjo. Vai arrumar um demérito se andar por aí com um rabinho maltrapilho destes.</p>
<p>Outras garotas apareceram pedindo fantasias, marcando o nome num caderninho preso ao balcão. Descobri que não era permitido sair do prédio com a fantasia e que cada uma pagava dois dólares e meio pela manutenção e lavagem da mesma. As Coelhinhas também pagavam cinco dólares por um par de meias-calças pretas e podiam receber deméritos se usassem meias rasgadas. A chefe de guarda-roupa me deu amostras de ambas as fantasias e me disse para mandar pintar os sapatos para que combinassem com a roupa. Perguntei se o clube pagava a pintura dos sapatos.</p>
<p>— Você enlouqueceu, meu bem? Esse lugar não dá dinheiro para nada. E certifique-se de que são saltos dez. Vai arrumar um demérito se usar mais baixos.</p>
<p>Eu me vesti e fui ver a Mamãe Coelha. Sheralee estava sentada à escrivaninha. Com os longos cabelos presos, parecia ter dezoito anos. Ela me entregou um formulário rosa-choque no qual estava escrito &#8220;Solicitação para Coelhinhas&#8221; e uma maletinha de plástico marrom com a miniatura de uma garota nua e THE PLAYBOY CLUB escrito em laranja.</p>
<p>— Esta é a bíblia da Coelhinha — ela me disse muito séria. — Quero que me prometa que vai passar o fim de semana inteiro estudando-a.</p>
<p>O formulário tinha quatro páginas. Eu já inventara grande parte das respostas para a minha biografia mas algumas das perguntas eram novas. Eu estava saindo com algum cliente do clube, se estivesse, qual o nome dele? Nenhum. Pretende sair com algum cliente? Não. Tem ficha na polícia? Não. Deixei o espaço destinado ao número de seguridade social em branco.</p>
<p>Subi um lance de escadas e entreguei o formulário à Srta. Shay. A sala de chão de cimento estava pontilhada de escrivaninhas. Mas a da Srta. Shay, como diretora de pessoal, ficava num canto. Ela vasculhou o formulário e tirou mais polaróides de mim.</p>
<p>— Traga o cartão de seguridade social amanhã, sem falta.</p>
<p>Eu me perguntei o que fazer sobre o fato de Marie Ochs não possuir um. Um homem atarracado de terno azul, camisa preta e gravata branca fez um gesto na direção de uma garota gorducha que se encontrava logo atrás dele.</p>
<p>— O Sr. Roma disse que eu a trouxesse aqui e eu ficarei muito grato por qualquer coisa que puder fazer por ela—ele disse, piscando.<br />
— Em casos de extrema recomendação pessoal — disse a Srta. Shay com enorme indiferença. — Nós fazemos a entrevista imediatamente.<br />
— Ela fez sinal para Sheralee que levou a garota para baixo.O homem pareceu aliviado.</p>
<p>Uma ruiva, acompanhada de dois homens, se aproximou mas a Srta. Shay pediu-lhes que aguardassem. O mais jovem deu um soquinho brincalhão no queixo da ruiva e sorriu.<br />
— Você não tem com o que se preocupar, benzinho. — Ela o olhou com desdém e acendeu um cigarro.</p>
<p>Assinei um formulário de imposto de renda, vale refeição, um recibo referente aos vales, um formulário de solicitação de emprego, um outro de seguro e uma autorização para a divulgação de fotografias para qualquer finalidade — publicidade, editorial ou outra — que escolhesse a Playboy Clubs International. Um jovem em mangas de camisa, com aparência bastante apressada, entrou para dizer à Srta. Shay que os dois homens que trabalhavam no porão iam pedir demissão. Eles haviam esperado receber 75 dólares por seis dias de trabalho e iam trabalhar apenas cinco por sessenta. Estavam descontentes e tinham famílias para sustentar.</p>
<p>-Não posso mudar coisa alguma — ela disse, secamente. — Eu me limito a pôr em prática as decisões do Sr. Roma.</p>
<p>A Srta. Shay grampeou duas fotos polaróides à minha solicitação de emprego e entregou-me os meus horários.<br />
— Amanhã, irá ao Larry Matthews para lhe auxiliarem com a maquiagem. Este fim de semana é para estudar a bíblia da Coelhinha e marquei um horário na segunda para você fazer um exame médico.— Ela chegou para frente e disse em tom de confidência:—Um exame <em>completo</em>. Segunda-feira é o dia da palestra da Mamãe Coelha e do Papai Coelho. Terça-feira é dia de Escola de Coelhinhas e quarta você treinará no próprio bar.</p>
<p>Eu perguntei se a consulta podia ser feita com meu próprio médico.<br />
— Não. Você precisa ir ao nosso médico para um exame especial. É obrigatório para todas as Coelhinhas.</p>
<p>A Srta. Shay me mandou assinar um último formulário, uma requisição para que uma cópia do registro do nascimento de Marie Ochs fosse enviada para o Playboy Club. Eu o assinei, esperando que o estado do Michigan demorasse um pouco para descobrir que Marie Ochs não existia.</p>
<p>— Enquanto isso, vou precisar ver sua certidão de nascimento. Não podemos permitir que trabalhe sem que a vejamos. Concordei em enviar uma carta urgente para casa para que a enviassem.</p>
<p>É claro que não me permitiriam servir bebidas alcoólicas ou trabalhar à noite sem provar que era maior. Por que não pensei nisso antes? Bem, o futuro de Marie talvez fosse curto mas talvez ela conseguisse ao menos terminar a Escola de Coelhinhas.</p>
<p><strong>SEXTA-FEIRA, 1 DE FEVEREIRO</strong></p>
<p>Experimentei cílios postiços no Larry Matthews, um salão de beleza no Hotel West Side, que fica aberto 24 horas por dia. Enquanto uma maquiadora separava os cílios com uma tesourinha, comentou que uma garota acabara de ser despedida do clube &#8220;porque se recusara a sair com um cliente Número Um&#8221;. Eu disse que pensava ser proibido sair com clientes.</p>
<p>— Você pode sim, contanto que ele seja um cliente &#8220;Número Um&#8221; — ela explicou. — Os Número Um são gerentes do clube, repórteres e figurões.</p>
<p>Expliquei que ser demitida por não sair com um deles me parecia uma coisa muito diferente.<br />
— Bem — ela começou, pensativa —, acho que foi a maneira que ela disse. Ela mandou ele se ferrar.</p>
<p>Paguei a conta. US$ 8,14 pelos cílios e por um ruge, mesmo com os 25% de desconto para Coelhinhas. Recusara-me a investir num batom mais escuro, embora &#8220;as garotas fossem despedidas por estarem pálidas&#8221;. Perguntei-me quanto as Coelhinhas geravam de negócios para o Sr. Matthews. Será que houvera uma licitação de salões de beleza para um negócio tão lucrativo?</p>
<p>Estou em casa e medi os cílios. Talvez eu não devesse me preocupar tanto em ser reconhecida. Na parte mais longa, estes cílios têm mais de dois centímetros de comprimento.</p>
<p><strong>DOMINGO, DIA 3</strong></p>
<p>Passei um domingo enriquecedor com a bíblia da Coelhinha, ou o <em>Manual da Coelhinha do Playboy Club</em>, seu nome oficial. Da introdução (&#8220;Você tem o melhor emprego do país para uma jovem&#8221;) ao apêndice (&#8220;Sidecar: Passe limão na borda do copo e polvilhe com açúcar&#8221;), é um modelo de clareza.</p>
<p>Há pelos menos uma dúzia de suplementos que acompanham a bíblia. Ao todo, dão uma idéia bem vivida das funções de uma Coelhinha. Por exemplo:</p>
<blockquote><p>
.. .Você&#8230; é o único contato direto que grande parte dos leitores jamais terá com os funcionários de Playboy&#8230; Dependemos de nossas Coelhinhas para expressar a personalidade da revista. </p>
<p>&#8230;É esperado que as Coelhinhas contribuam com um número razoável de aparições pessoais como parte de suas obrigações para com o clube.</p>
<p>&#8230;É bom lembrar às Coelhinhas que há maneiras muito agradáveis de aumentar o volume de bebidas alcoólicas consumidas no clube e assim aumentar os ganhos pessoais de cada uma, significativamente. A chave para uma maior venda de bebidas é o Contato com o Cliente&#8230;eles reagirão bem à sua tentativa de ser simpática&#8230; Deve fazer com que pareça que as opiniões do cliente são muito importantes&#8230;</p>
<p>&#8230;O Sistema de Incentivo é um método criado para recompensar as Coelhinhas garçonetes que se esforçam um pouco mais&#8230; A Coelhinha com a maior média de bebidas vendidas por cabeça vencerá&#8230; Prêmio em dinheiro&#8230; a ser determinado pelo lucro geral com bebidas.</p></blockquote>
<p>Há um problema em ser &#8220;simpática&#8221;, em &#8220;mimar&#8221; o cliente e ao mesmo tempo se recusar a sair com ele ou até mesmo a lhe dizer seu sobrenome. O manual deixa bem claro que as Coelhinhas não deverão jamais sair com alguém que conheceram no clube — cliente ou funcionário — e acrescenta que uma agência de detetives chamada Willmark Service Systems, Inc. foi contratada para se certificar de que tal não ocorreria. (&#8220;E claro que não há como saber se você está sendo vigiada por um representante da Willmark Service.&#8221;) A explicação dada às Coelhinhas é simples: &#8220;Os homens ficam muito empolgados em ter Elizabeth Taylor como companhia, mas eles sabem que não podem tocá-la ou fazer-lhe propostas. No momento em que eles sentirem que alguma intimidade foi estabelecida, ela perderá a aura de <em>glamour</em> que a envolve. É assim que deve ser com nossas Coelhinhas&#8221;. Numa carta anexa, escrita por Hugh Hefner e endereçada à Willmark, a explicação é ainda mais simples: &#8220;Nosso alvará de funcionamento é ameaçado cada vez que um de nossos funcionários se envolve diretamente, auxilia ou é cúmplice de atos de prostituição&#8230;&#8221; Assim a Willmark ficava instruída para &#8220;Usar seus representantes mais atraentes e simpáticos para fazer propostas às Coelhinhas e até mesmo oferecer quantias no valor de US$ 200,00, com a promessa de um encontro mais tarde fora do clube&#8221;. Os representantes da Willmark são instruídos a perguntar ao barman ou a qualquer outro funcionário homem &#8220;se algumas das meninas estão disponíveis para uma &#8216;noite divertida&#8217;&#8230; Diga a ele que você a pagará bem ou então a ele por arrumá-la&#8221;. Se o funcionário funcionar como &#8220;procurador&#8221;, a Willmark deverá notificar ao clube imediatamente. &#8220;Nós, naturalmente, não toleraremos que nossas Coelhinhas sejam comercializadas&#8221;, escreve o sr. Hefner. &#8220;E ansiamos por saber se tais coisas estão ocorrendo.&#8221;</p>
<p>Se a idéia de ser comercializada não for o bastante para assustar qualquer candidata a Coelhinha, há outras sugestões que o farão. Os representantes da Willmark estão incumbidos de verificar se o| saltos usados estão muito baixos, se as meias estão com o fio puxado, se usam bijuterias, se as calcinhas estão à mostra, se as orelhinhas estão tortas ou se não combinam com a fantasia, se a mesma está suja, se a Coelhinha esqueceu de usar crachá e se os rabinhos estão &#8220;de acordo&#8221;. Além disso: &#8220;Quando começar o espetáculo, verificar se as Coelhinhas estão reagindo aos artistas. Quando for um show cômico, é esperado delas que riam&#8221;. Você poderá estar sendo observada pelo Grande Irmão da Willmark. </p>
<p>Na verdade, as Coelhinhas deverão <em>sempre</em> parecer contentes e satisfeitas (&#8220;Pense em algo alegre e engraçado&#8230; o produto mais importante que você está vendendo é sua personalidade&#8221;) apesar de todas as suas preocupações, incluindo o sistema de deméritos. Cabelos em desalinho, unhas malcuidadas e maquiagem malfeita custam cinco pontos no sistema de avaliação. Assim como chamar um chefe de setor pelo primeiro nome, perder o horário com o maquiador, ou comer na Sala da Coelhinha. Mascar chiclete ou comer durante o expediente valem dez pontos na primeira ofensa, vinte na segunda e demissão na terceira. Quem receber três multas &#8220;por não aparecer para o turno e não encontrar substituta&#8221; não só será demitida como também entrará na lista negra no caso de uma futura candidatura para os demais clubes da rede. Atrasos na chegada ou após intervalos custam um &#8220;demérito&#8221; por minuto de atraso, no caso de não seguir as instruções de um chefe de setor, quinze. &#8220;O valor em dólar de cada &#8216;demérito&#8217;&#8221;, diz a bíblia, &#8220;dependerá do gerente geral de cada clube.&#8221;</p>
<p>Uma vez que o sistema tiver sido assimilado, há instruções para cada trabalho específico. As Coelhinhas Recepcionistas recebem o cliente e checam seus chaveiros, onde está escrito o tipo de clientes que são; as Coelhinhas Fotógrafas operam as Polaróides; as Coelhinhas Cigarreiras explicam por que um maço de cigarros não pode ser comprado sem um isqueiro Playboy; as Coelhinhas Chapeleiras aprendem o sistema do guardavolumes; as Coelhinhas da Lojinha vendem produtos Playboy; as Coelhinhas da Lojinha Ambulante carregam produtos Playboy em cestas e as Coelhinhas Garçonetes devem decorar treze páginas de drinques.</p>
<p>A sobrevivência de uma Coelhinha depende de outras coisas além de peitos com enchimento.</p>
<p><em>Nota</em>: A Seção 523 afirma: &#8220;Funcionários devem entrar e se divertir como clientes normais se forem convidados de clientes Número Um&#8217;. Seriam estes os tais figurões dos quais falara minha maquiadora?</p>
<p><strong>MANHÃ DE SEGUNDA, DIA 4</strong></p>
<p>As onze fui ao consultório do médico indicado pelo clube, localizado num hotel da vizinhança. (&#8220;Vinte deméritos para quem faltar a uma hora marcada.&#8221;) A enfermeira me mandou preencher um histórico médico. &#8220;Você sabe que isto inclui um exame interno? Venho tentando conseguir que a Srta. Shay avise às moças.&#8221; Eu disse que sabia mas que não compreendia por que haveria de ser necessário. &#8220;E para seu próprio bem&#8221;, ela disse, indicando o caminho até uma sala que continha um armário de remédios, uma balança e uma mesa para exames ginecológicos. Vesti um roupão e aguardei. Pareceu-me que, ultimamente, eu vinha passando grande parte de meu tempo tirando a roupa, esperando, ou ambos.</p>
<p>A enfermeira voltou acompanhada do médico, um senhor robusto, de seus sessenta anos, com a pele rosada de um bebê.<br />
— Então você vai ser Coelhinha—ele disse com animação. — Acabo de voltar de Miami. Bonito o clube de lá. Cheio de belíssimas Coelhinhas.</p>
<p>Eu estava prestes a perguntar se ele possuía uma franquia, e se percorria o país de costa à costa, mas ele me interrompeu para perguntar se eu estava gostando da vida de Coelhinha.</p>
<p>— Bem, é mais animado do que ser secretária — respondi, e ele me mandou sentar na beirada da mesa. Enquanto ele socava minhas costas e me auscultava, de repente me passou pela cabeça que todas as Coelhinhas de Nova York haviam se sentado naquele mesmo lugar.</p>
<p>— Agora vem a parte que todas as meninas detestam — disse ele, tirando sangue do meu braço para realizar um exame Wassermann.</p>
<p>Eu disse que um exame de sangue para determinar se alguém é portador de doenças venéreas me parecia um tanto sinistro.</p>
<p>— Não seja boba — disse ele. — Todos os funcionários têm de passar por isso. Pelo menos você sabe que todo mundo do clube é saudável. — Eu disse que o fato de serem ou não saudáveis não me afetava em coisa alguma e que eu tinha objeções quanto a ser submetida a tais exames. Silêncio. Ele me mandou ficar de pé para &#8220;poder ver se suas pernas são tortas&#8221;.</p>
<p>— Então está bem. Eu tenho de ser submetida ao Wassermann.</p>
<p>E o exame ginecológico? É exigido de todas as garçonetes do estado<br />
de Nova York?</p>
<p>— E qual é o problema? — indagou ele. — É de graça e para o bem de todo o mundo.<br />
.— Como? — perguntei.<br />
— Olhe — ele começou com impaciência —, nós sempre constatamos que as garotas que objecionam com mais veemência têm algum motivo&#8230; — Ele fez uma pausa carregada de significados ocultos.</p>
<p>Também me detive. Eu tinha duas escolhas: ir até o fim ou sair em sinal de protesto. Mas em sinal de protesto contra o quê?</p>
<p>De volta à recepção, a enfermeira me entregou um bilhete, que eu deveria entregar à Srta. Shay, dizendo que eu havia passado nos exames preliminares. Enquanto eu vestia o casaco, ela telefonou para o laboratório para que viessem buscar &#8220;um exame de sangue e um papanicolau&#8221;. Perguntei por que faziam estes exames mas nenhum de urina? Não era ele, afinal, o mais comum dos exames de laboratório?</p>
<p>— É para a sua proteção — disse ela com firmeza. — Além do mais, quem paga é o clube.</p>
<p>Na recepção do hotel fui até o telefone público para ligar para a Saúde Pública. Perguntei se exigiam que as garçonetes da cidade de Nova York fossem submetidas ao teste Wassermann.<br />
— Não.<br />
Então quais eram os exames médicos necessários?<br />
— Nenhum — foi a resposta.</p>
<p><strong>TARDE, SEGUNDA, DIA 4</strong></p>
<p>A palestra da Mamãe Coelha acabou sendo uma conversa informal, e por diversas vezes interrompida, na salinha sem janela de Sheralee. Havia outras sete candidatas, duas das quais a caráter. Havia também uma loura de traços delicados, a modelo do Texas que eu já conhecera, uma garota enorme de cabelos muito longos que disse ser assistente de mágico, uma garota quadradona vestindo conjunto quadriculado, uma morena bonita que não tirava o casaco.</p>
<p>Em grande parte, Sheralee só fez repetir a bíblia das Coelhinhas, mas alguns pontos eram novos.</p>
<p>1. Devido à existência de um salário mínimo na cidade de Nova York, precisamos receber um salário de cinqüenta dólares por uma semana de quarenta horas. Recebemos gorjetas mas o clube fica com 50% dos primeiros trinta dólares pagos com cartão de crédito, 25 % dos totais de até sessenta dólares e 5% daí em diante. &#8220;Isso quer dizer metade de tudo que ganhamos&#8221;, sussurrou uma das meninas fantasiadas. &#8220;Mas quem é que ganha mais de trinta dólares por dia?&#8221;</p>
<p>2. Podemos ficar com todas as gorjetas que nos são dadas em espécie mas se indicarmos preferência por gorjetas em espécie, seremos demitidas.</p>
<p>3. &#8220;Não sei se vocês sabem o que quer dizer &#8216;média de bebida&#8217;&#8221;, disse Sheralee. Ela então pôs-se a explicar que se tratava do número de drinques por cliente. &#8220;Mas se vocês trabalharem bem, os clientes repetirão os pedidos e vocês recebem méritos pelo trabalho. Cem méritos é igual a 25 dólares.&#8221;</p>
<p>4. Se formos nos encontrar com maridos e namorados após o trabalho, devemos fazê-lo a duas quadras do clube. Os clientes não devem nos ver encontrando outros homens.</p>
<p>5. Não devemos jamais deixar dinheiro em nossos armários. Duas meninas foram demitidas recentemente porque foram pegas roubando.</p>
<p>6. Devido aos &#8220;problemas especiais de Nova York&#8221;, não podemos ser multadas em dinheiro pelos deméritos, assim, podemos compra-los de volta com méritos. &#8220;Se cem méritos é igual a 25 dólares&#8221;, perguntei, &#8220;não dá no mesmo?&#8221;. Sheralee disse que não<br />
.<br />
7. Clientes Número Um recebem tratamento diferenciado. Por exemplo, devemos trazer-lhes telefone, bloco de papel e caneta imediatamente. A Playboy International então &#8220;absorve&#8221; seus gastos. Chaveiros com o número um são dados aos executivos de todos os clubes, a membros importantes da imprensa e a alguns outros VIPs. Podemos também dar-lhes nossos nomes ou sair com eles.<br />
A assistente de mágico perguntou se era esperado que saíssemos com eles.<br />
— É claro que não — respondeu Sheralee.<br />
— Mas um dos chefes de seção ficou com raiva de mim porque eu não dei meu nome a um cliente Número Um. Expliquei que era casada mas ele disse que eu tinha de dar meu nome do mesmo jeito.<br />
Sheralee disse que estava certa de que o chefe de setor se expressara mal.<br />
Você jamais precisará fazer o que não quer — ela disse com doçura.</p>
<p>8. O apartamento de Vic Lownes é usado para as festas promocionais da Playboy em Nova York, assim como a casa de Hugh Hefner é usada em Chicago. (&#8220;O Sr. Lownes administrava os clubes&#8221; explicou Sheralee. &#8220;Mas agora ele está ligado, basicamente, à revista.&#8221;) Quando formos a tais festas, não poderemos levar homens. &#8220;Nem mesmo nossos maridos?&#8221;, perguntou a assistente de mágico. &#8220;Homem algum. Absolutamente nenhum. Mas é claro que não precisam ir se não quiserem&#8221;, respondeu Sheralee.</p>
<p>Todas descemos à sala VIP para a palestra do Papai Coelho, mas antes uma Coelhinha parou na porta do escritório de Sheralee e gritou &#8220;Gloria!&#8221; Eu gelei. Depois de uma eternidade, a Coelhinha sentada a meu lado respondeu. Eu aprendi a responder quando me chamam de Marie. Agora preciso não reagir quando me chamam de Gloria.</p>
<p>Não havia Papai Coelho e sim duas séries de slides com uma narrativa gravada e um fundo musical de jazz. Uma das palestras falava, de forma muito generalizada, sobre as Coelhinhas. Não continha nada de novo, a não ser que quando os clientes tentassem forçar uma intimidade, devíamos dizer &#8220;Senhor, não é permitido pôr as mãos nas Coelhinhas&#8221;. A segunda parte da palestra do Papai Coelho era chamada &#8220;O Coquetel da Coelhinha&#8221;. Ensinava a encher bandejas, preencher comandas e colocar os drinques na mesa. A narrativa não estava sincronizada aos slides, a sala estava gelada e eu saí de lá com uma dor de cabeça de matar.</p>
<p>Sheralee disse que a Srta. Shay queria me ver. Meu coração ficou apertado.</p>
<p>O escritório principal continuava aquele caos iluminado com empadas fluorescentes mas a Srta. Shay parecia uma ilha de tranqüilidade. Ela me disse que eu precisaria de uma identidade para entrar e sair do prédio. Entreguei-lhe o bilhete do médico e meu número de seguridade social de verdade. Expliquei que perdera o cartão. Ela pareceu desconfiar mas aceitou o número.</p>
<p>Eu quis perguntar o porquê dos exames da manhã mas decidi esperar um pouco. Se eu chamasse atenção para mim mesma, talvez apenas lhe lembrasse que não entregara a certidão de nascimento. Disse a ela que meu arquivo estava completo, a não ser por uma abreugrafia, e saí da sala. É difícil crer que a eficientíssima Srta. Shay não me pegará logo logo. Mas vou ficando até me descobrirem.</p>
<p><strong>TARDE, TERÇA, DIA 5</strong></p>
<p>Ao meio-dia de hoje esperei numa fila para fazer uma abreugrafia grátis na Saúde Pública, falando baixinho: &#8220;O Flamingo leva cereja, laranja e uma rodela de limão. O Mist leva gotas de limão e o London Docks, licor&#8221;. Estas pequenas pérolas de sabedoria foram tiradas da minha listagem de drinques e, assim como todos os outros documentos contidos naquela maletinha de plástico marrom, seriam matéria de uma prova escrita às três da tarde.</p>
<p>Fui ver Sheralee e ela me cumprimentou apressada: &#8220;Ah, meu docinho, estou completamente desesperada\&#8221; Precisava de uma garota maior de 21 anos para trabalhar na chapelaria das sete e meia da noite às quatro da manhã. Será que eu poderia ajudá-la? É claro que sim, eu respondi, se ela achava que eu daria conta do recado. &#8220;Ah, mas é claro que dá, meu bem&#8221;, ela disse. &#8220;É muito simples.&#8221; Meus sapatos da cor da fantasia ainda não estavam prontos mas, enfim, eu poderia usar os pretos, ela disse. Era só me apresentar para a maquiagem às sete. Fiquei surpresa e entusiasmada. Eu ia ter pelo menos uma noite no bar. Sim, se eu conseguisse me esquivar da Srta. Shay.</p>
<p>A prova era na verdade uma lista de 61 perguntas com respostas curtas. Nossa classe de oito meninas escrevia furiosamente enquanto Sheralee lia as perguntas em voz alta. Eu podia ver que a modelo texana estava perplexa, sua boca encontrava-se levemente aberta. A Coelhinha chamada Gloria mordia os nós dos dedos. Decidi que não seria boa idéia demonstrar muita sabedoria e errei seis perguntas de propósito. Corrigimos as provas umas das outras e lemos os resultados em voz alta. A minha prova foi a melhor da classe, com nove erros, e o resto errou quatorze ou mais. Texas errou quase trinta. Quando o clube diz que uma Coelhinha é escolhida pela &#8220;1) Beleza 2) Personalidade 3) Habilidade&#8221;, deve haver algum significado nesta ordem.</p>
<p>Fomos até a cobertura, uma sala grande no quarto andar com painéis iluminados representando telhados. Sheralee nos colocou em fileira e começou a nos perguntar a respeito de drinques.<br />
— O que é Fleischmann&#8217;s?<br />
__ Gim.<br />
— O que é Vat 69?<br />
— Ainda não estudei isso — disse Texas.<br />
— Uísque — disse a morena bonita.<br />
— O que é Courvoisier?<br />
— Eu sei. Eu decorei. É&#8230; conhaque — disse Gloria.<br />
— O que é Piper Heidsieck? — A lourinha delicada não sabia.<br />
— Você nunca bebeu champanhe? — perguntou Sheralee. A loura respondeu que não. — Parece ginger ale, só que custa muito, mas muito dinheiro.</p>
<p>Depois de várias rodadas de perguntas, todo mundo fora capaz de responder pelo menos algumas. Menos Texas. Ela baixou a cabeça tingida com hena e Sheralee admoestou-a duramente.</p>
<p>Uma garota negra, muito pálida e muito alta, entrou e se apresentou como nossa treinadora. Ela era magra e frágil como uma manequim de passarela e muito bonita.<br />
— É uma das Coelhinhas mais antigas do clube — disse Gloria.<br />
— Todos a adoram.<br />
— Os homens chamam as garotas de cor de Coelhinhas de Chocolate — disse uma outra, rindo.</p>
<p>Passamos uma hora apressada aprendendo a pose da Coelhinha (uma pose de modelo, com o quadril projetado para fora) e o mergulho da Coelhinha (uma forma de curvar o corpo levemente para trás para que nossos seios não saltem para fora da fantasia quando colocamos os drinques sobre as mesas baixas).<br />
— Boa-noite, senhor, sou sua Coelhinha, Marie. Poderia me mostrar seu chaveiro de sócio, por favor? O senhor possui chaveiro ou este é um chaveiro emprestado? Obrigada. O que posso lhe trazer?</p>
<p>Nada de desvios. Perguntei-me se a uniformidade não haveria de cansar os clientes. &#8220;Posso lhe trazer mais alguma coisa, Sr. Jones?&#8221; Muito obrigada, Sr. Jones. Venha nos fazer outra visita.&#8221; Eu estava sendo programada.</p>
<p>Em casa, eu me escondo por trás de uma máscara com cílios postiços. O escritório do clube estará fechado quando eu chegar: nenhuma Srta. Shay para me proibir de trabalhar. Pelo menos minha carreira incluirá uma noite de &#8220;Contato com o Cliente&#8221;.</p>
<p><strong>NOITE, TERÇA, DIA 5</strong></p>
<p>A sala das Coelhinhas estava um caos. Puxa daqui, puxa dali até a chefe de guarda-roupa fechar minha fantasia azul-rei. Desta vez ela permitiu que eu colocasse meu próprio enchimento e eu consegui me safar com apenas metade de um saco plástico. Coloquei a gola e prendi a gravatinha-borboleta e os punhos com abotoaduras de coelhinho. Meu crachá foi colocado num arranjo de fitas, tal qual uma medalha daquelas que põem em cavalos quando vencem corridas, e preso logo acima do quadril, à direita. Uma mudança no regulamento interno acabara de mudar os crachás do lado esquerdo para o direito. A chefe de guarda-roupa também me entregou uma jaqueta porque fazia menos de dez graus negativos e eu deveria me posicionar ao lado da porta de entrada. A tal jaqueta era um pedacinho de pele branca artificial que cobria os ombros mas deixava o decote cuidadosamente à mostra.</p>
<p>Fui até Sheralee para ser inspecionada.<br />
— Você está uma graça — disse ela e me aconselhou a guardar o dinheiro que trouxera dentro da fantasia. — Tiraram coisas do armário de outras duas garotas. —Ela então acrescentou que eu deveria dizer ao chefe da portaria quanto eu trouxera em dinheiro. — Senão vão achar que você roubou gorjetas.</p>
<p>É que as Coelhinhas Garçonetes podiam guardar gorjetas em espécie (embora o clube ficasse com cinqüenta por cento das gorjetas das contas pagas com cartão de crédito), mas as Coelhinhas Chapeleiras não podiam ficar com gorjeta alguma. Em vez disso, elas recebiam doze dólares por oito horas de trabalho. Eu disse a ela que um salário de doze dólares por dia era bem menos do que os duzentos a trezentos dólares mencionados no anúncio.<br />
— Ora meu anjo, você não vai trabalhar sempre na chapelaria — ela disse. — Assim que você começar a trabalhar nas mesas, da tudo no mesmo. Você vai ver.</p>
<p>Dei mais uma olhada no espelho. Uma criatura com cílios de dois centímetros, orelhas de cetim azul e seios que pareciam saltar do decote olhou para mim. Perguntei a Sheralee se precisávamos de tanto enchimento assim.</p>
<p>— É claro que sim — ela respondeu. — Quase todas as garotas enchem e enchem mais um pouco. É assim que uma Coelhinha deve ser.</p>
<p>A porta do elevador abriu no mezanino e fiz minha estréia profissional no Playboy Club. Estava cheíssimo, barulhento e muito mas muito escuro. Bem próximo de mim, havia um grupo de homens com crachás de uma mesma empresa na lapela.</p>
<p>— Olha só a minha Coelhinha — disse um deles, atirando os braços em torno do meu pescoço, como se fôssemos jogadores de futebol deixando o campo.<br />
— Por favor, senhor — eu disse e balbuciei a frase mágica que aprendêramos na palestra do Papai Coelho. — Não é permitido pôr as mãos nas Coelhinhas. — Seus comparsas riram às gargalhadas.<br />
— Aí meu velho, que bronca você levou, hein? — disse um deles. Puxou meu rabinho enquanto eu me afastava.</p>
<p>Com as frases da Coelhinha ecoando em minha mente desci as escadas em caracol, acarpetadas, que separavam o mezanino (&#8220;Sala de Estar, Piano Bar, o bufê está servido&#8221;) e o lobby (&#8220;Entreguem seus casacos e sentem-se imediatamente no bar&#8221;), separados da rua por uma vidraça de pé direito duplo. A alternativa seria uma escadaria larga ao fundo do lobby, mas ela também podia ser vista da rua. Todos nós, clientes e Coelhinhas, fazíamos parte de uma imensa vitrina. Fui ver o chefe do lobby.<br />
— Olá, Coelhinha Marie — ele disse. — Como vão as coisas?<br />
Respondi que tinha quinze dólares na fantasia.<br />
— Pode deixar que eu me lembro — disse ele e tive a humilhante visão de uma fileira de Coelhinhas Chapeleiras tendo os bustos inspecionados.</p>
<p>Havia um paredão de homens impacientes aguardando na Chapelaria. A Coelhinha Chapeleira-chefe, uma lourinha importada de Chicago &#8220;para dar um jeito nas coisas&#8221;, me disse para pegar os tíquetes e gritar o número para os dois &#8220;cabideiros&#8221; que se encontravam atrás do balcão.</p>
<p>— Eu lhe dou meu número se você me der o seu — disse um senhor calvo, virando-se para a platéia, à espera de aplausos, depois de uma hora auxiliando homens com casacos, cachecóis e chapéus, o corre-corre aliviou o bastante para que a Coelhinha de Chicago conseguisse me ensinar como pregar números em lapelas com alfinetes ou enfiá-los no forro dos chapéus. Ela me ensinou mais algumas frases mágicas. &#8220;Muito obrigada, senhor. Aqui está seu tíquete.&#8221; &#8220;A Coelhinha de Informações encontra-se no andar de baixo, à sua direita.&#8221; &#8220;Eu sinto muito, não estamos autorizadas aguardar casacos de senhoras.&#8221; (A Chapelaria estava disponível para mulheres apenas se o clube não estivesse cheio e se os casacos não fossem de pele.) Ela enfatizou que eu deveria colocar todas as gorjetas numa caixinha presa à parede, sorrir com gratidão e jamais dizer ao cliente que a gorjeta ficava para o clube. Ela caminhou até a outra metade da chapelaria (&#8220;Os tíquetes azuis são na sala ao lado, senhor&#8221;) e mandou uma Coelhinha suíça, alta e grandalhona, substituí-la. </p>
<p>Atendemos a um pequeno grupo de clientes e conversamos um pouco. Voltei à minha constante preocupação de que alguém entraria, me reconheceria e gritaria &#8220;Gloria!&#8221; Se era verdade que uma repórter de jornal e outra de revista haviam tentado se tornar Coelhinhas e falharam, a gerência do clube devia estar de olhos bem abertos para tal possibilidade. Eu vira um número grande o suficiente de filmes de Sydney Greenstreet para me preocupar com a reação do clube. Se algum conhecido entrasse, eu teria de repetir &#8220;Deve haver algum engano&#8221; diversas vezes e esperar o melhor. </p>
<p>A turma do jantar foi chegando e logo vinte homens aguardavam. Trabalhávamos rapidamente, mas com tantos casacos entrando e saindo a coisa ficou confusa. Um cliente cambaleava atrás do balcão em busca de um chapéu perdido e outros dois reclamavam em voz alta que já esperavam há dez minutos. &#8220;Essa fila que se forma fora do Playboy Club é só porque tem gente esperando o casaco&#8221;, disse um. Um homem de terno azul de seda estendeu o braço para apertar meu rabo. Desviei e abri o casaco para que um senhor calvo, com o bolso cheio de esferográficas, pudesse vesti-lo. Ele o vestiu, de trás para frente, de forma a me abraçar. O cabideiro gritou com um pesado sotaque espanhol: &#8220;Deixe-a em paz&#8221; e o senhor o mandou calar a boca. Três mulheres com estolas de vison aguardavam seus maridos. Elas nos encaravam, não com inveja e sim com frieza, como se estivessem se comparando à Coelhinha suíça e a mim- Lá em cima, na parede oposta, uma câmera nos vigiava a todos, transmitindo a cena em telas embutidas, espalhadas pelas paredes do clube. Havia até uma tela acima da calçada. Um aviso dizia: &#8220;Esta câmera do circuito interno de TV transmitirá sua entrada para todo o clube » Sentia-me como se estivesse caminhando nua através das multidões e a única forma de recuperar minhas roupas seria passando nela escadaria da gaiola de vidro. A medida que mais homens estendiam casacos em minha direção, eu me virava para o cabideiro para pedir mais tíquetes.</p>
<p>— Não se preocupe — disse ele gentilmente. — Você logo se acostuma.</p>
<p>O movimento ficou mais calmo. Perguntei à Coelhinha suíça se ela estava gostando do trabalho.<br />
— Não muito — ela respondeu, dando de ombros. — Fui aeromoça durante algum tempo, mas depois que você conhece Hong Kong já viu de tudo.</p>
<p>Um homem se aproximou para tirar o casaco. Virei-me e dei de cara com duas pessoas que eu conhecia bem, um executivo da televisão e a esposa. Mantive os olhos baixos enquanto pegava o tíquete e dei-lhes as costas enquanto o cabideiro procurava o casaco, mas tive de encará-lo outra vez para devolver o mesmo. Meu amigo televisivo olhou diretamente para mim, deu-me cinqüenta centavos de gorjeta e se afastou. Nem ele nem a esposa me reconheceram. Foi deprimente ser uma zé-ninguém fantasiada de Coelhinha, mas era também uma vitória. Para comemorar, ajudei um homem magro, de aparência tímida, a enrolar um cachecol azul e branco no pescoço e perguntei-lhe se o cachecol era da Universidade de Yale. Ele me olhou assustado como se tivesse sido reconhecido num baile de máscaras.</p>
<p>Não havia relógios em nenhum lugar do clube. Perguntei ao cabideiro que horas eram. &#8220;Uma hora&#8221;, ele respondeu. Eu estava trabalhando há cinco horas, sem intervalo. Meus dedos estavam furados e doloridos, de tanto empurrar alfinetes através de papelão, meus braços doíam com o peso dos casacos e eu estava gelada com o vento glacial que soprava pela porta cada vez que um cliente a abria, equilibrada em sapatos de cetim de salto dez, eu morria de dor nos pés. Aproximei-me da Coelhinha de Chicago para perguntar se eu Podia descansar um pouco.</p>
<p>— Pode. Mas é meia hora para comer e só.</p>
<p>Depois da Sala da Coelhinha havia uma sala de funcionários onde nossos vales nos proporcionavam uma refeição gratuita por dia. Eu aproximei uma cadeira portátil de metal de uma mesa longa e sem adereços, tirei meus sapatos, cuidadosamente, e sentei-me ao lado de dois homens negros uniformizados. Olharam para mim compadecidos enquanto eu massageava os pés. Um deles era jovem e bastante atraente e o outro, de meia idade, tinha os cabelos grisalhos nas têmporas. Como todos os funcionários do clube, pareciam ter sido selecionados devido à aparência física. O mais velho me aconselhou a rolar garrafas no chão, com os pés, como forma de relaxamento, e a comprar palmilhas ortopédicas para os sapatos. Perguntei o que faziam.</p>
<p>— Somos lixeiros — disse o mais jovem. — Pode não parecer grande coisa, mas é um trabalho mais fácil que o seu.<br />
Disseram que eu deveria comer alguma coisa e indicaram o ensopado de carne que comiam em pratos de papel.<br />
— Sexta-feira tem peixe, mas dia sim dia não é este mesmo ensopado — disse um deles.<br />
— O mesmo, só que pior — o outro arrematou e riu.</p>
<p>O mais velho disse que sentia pena das Coelhinhas, muito embora algumas gostassem de &#8220;exibir sua beleza&#8221;. Ele me aconselhou a ter cuidado com os pés e a tentar evitar duplas-jornadas.</p>
<p>Quando desci outra vez, tentei classificar os clientes enquanto pegava seus casacos. Com a exceção de alguns casais de adolescentes, a clientela era praticamente composta de executivos de meia idade. Menos da metade estava acompanhada de mulheres e o resto chegava em grupos enormes que pareciam ser subsidiados por empresas. Vi apenas quatro do tipo que aparecia representado nos anúncios do clube — o jovem, esbelto e bem-vestido Homem Urbano. Os quatro estavam acompanhados de mulheres esguias e elegantes que pareciam um tanto chocadas com os enchimentos de nossas fantasias e com a maquiagem chamativa. As esposas menos seguras não se comparavam a nós e pareciam supor que seus maridos se sentiriam atraídos por nós. Assim, chegavam para o lado e emanavam timidez e vergonha. Apenas alguns clientes, pouquíssimos, tanto homens quanto mulheres (contei dez ao todo), não olharam para nós como objetos e sim, possivelmente, como seres humanos.</p>
<p>A Coelhinha suíça foi descansar e o cabideiro resolveu me dar um singelo sermão. Segundo ele, eu era tola de colocar todo o dinheiro na caixa. As gorjetas vinham em dinheiro. Se não pegássemos um pouco para nós mesmos, será que o homem que o contava não o faria? Eu disse para ele que tinha medo de que revistassem por dentro da minha fantasia e que eu não queria ser demitida.</p>
<p>— Eles só revistam de vez em quando — ele me assegurou. — Bem, de qualquer forma, você me dá o dinheiro. Eu encontro você lá fora e nós o repartimos.</p>
<p>Meus pés doíam, meus dedos estavam grudentos de tantos forros de chapéus suarentos e minha pele estava arranhada pelas barbatanas da fantasia. Até mesmo o intervalo de meia hora para jantar fora tirado do meu horário de trabalho. Assim, o clube ficava com oito horas completas de trabalho. Meu ressentimento era grande o bastante para me fazer aceitar a oferta que ele me fazia. Mas mesmo assim não valia a pena ser demitida por roubo. Disse a ele que era nova e que ainda estava nervosa demais para levar a sugestão a cabo.</p>
<p>— Você se acostuma — ele disse. — Um sábado desses, a chapelaria arrecadou mil dólares em gorjetas. E você sabe quanto nos pagam. Pense nisso.</p>
<p>Eram quase quatro da manhã. Fim de expediente.<br />
O chefe do lobby veio nos dizer que haviam contado dois mil clientes naquela noite. Eu disse que era um bom número.<br />
— Não — ele discordou. — Quatro mil é um bom numero.</p>
<p>De volta à Sala da Coelhinha, devolvi minha fantasia e me sentei, imóvel, cansada demais para me mexer. O espartilho deixara marcas verticais nas minhas costelas e o zíper deixara um vergão na minha coluna. Reclamei para a Coelhinha que se encontrava ao meu lado, igualmente imóvel, que a fantasia era apertada demais.</p>
<p>— É — ela concordou. — Muitas garotas reclamam que ficam dormentes do joelho para cima. Acho que comprime algum nervo ou coisa parecida.</p>
<p>A rua estava deserta mas havia um táxi vazio do lado de fora, ao lado da saída de funcionários. O motorista mostrava uma nota de dólar pela janela aberta.<br />
— Tenho mais quatro destas aqui — ele disse. — Não é o bastante?<br />
Continuei a andar.<br />
— Qual é? — ele insistiu, irritado. — Você trabalha aí dentro, não trabalha?</p>
<p>As ruas estavam bem-iluminadas e reluzentes com o gelo. Ao percorrer a última quadra, antes de chegar a casa, passei por um carro inglês. O motor estava ligado e havia uma mulher atrás do volante. Seus cabelos eram muito louros e o casaco de um vermelho chamativo. Ela olhou para mim e sorriu. Eu devolvi o sorriso. Ela me pareceu disponível e estava. De nós duas, ela me pareceu a mais honesta.</p>
<p><strong>QUARTA, DIA 6</strong></p>
<p>Levantei-me a tempo de correr de volta para o clube para o treinamento de mesa e já cheguei com a sensação de que não tinha dormido em casa. Enquanto vestia a fantasia, uma das Coelhinhas lia um tablóide intitulado <em>O Guia de Shows de Leo Shull</em> em voz alta.</p>
<p>— Escutem só isso aqui: &#8220;Embora mil garotas tenham sido entrevistadas para trabalhar no clube e haja 125 trabalhando lá atualmente, a excelente freqüência do Playboy Club, as filas e a multidão de clientes que se aglomeram à porta todos os dias, exigiram a contratação de outras cinqüenta Coelhinhas&#8221;.</p>
<p>Eu soubera por Sheralee que havia 103 garotas trabalhando no clube. Perguntei à garota que estava lendo se realmente havia necessidade de contratar mais cinqüenta. Provavelmente, ela respondeu, pois o clube abrira com 140 Coelhinhas e quase 50 haviam se demitido.</p>
<p>Outra garota discordou.<br />
— Eu ouvi dizer que vinte foram demitidas e outras quarenta pediram demissão. Mas eu acho que foram até mais, porque nós somos cem agora e muitas são Coelhinhas novas.<br />
Eu disse que ia perguntar à Srta. Shay quantas garotas haviam se demitido, só de curiosidade.<br />
— Nem se dê ao trabalho — disseram-me. — Aqui ninguém nos conta nada mesmo.<br />
Peguei o jornal e continuei a ler:<br />
— &#8220;As garotas, na opinião deste repórter, são as mais lindas jamais reunidas sob um mesmo teto. A maioria tem nível superior e modos esmerados. São treinadas para oferecer o melhor serviço possível&#8230; Ganham de três a dez vezes mais do que ganhariam em atividade similar. A média de ganhos é entre duzentos e trezentos dólares e as Coelhinhas conhecem pessoas extremamente atraentes.&#8221; O artigo terminava com o endereço do clube e como se inscrever.</p>
<p>— De duzentos a trezentos dólares de quanto em quanto tempo ? — perguntou a Coelhinha dissidente. — Eu recebi 108 dólares esta semana e a garota que mais ganhou recebeu 145.<br />
Perguntei se ela era garçonete e ela disse que sim.<br />
— Da próxima vez que este Leo Shull vier aqui — disse a dissidente — , vou perguntar onde ele arrumou estes números.<br />
— Cuidado — disse a dona do jornal. — Ele é cliente Número Um.</p>
<p>Sheralee me chamou em seu escritório. Continuava desesperada por uma garota &#8220;de mais de 21 anos&#8221; que pudesse trabalhar até às quatro da manhã. Será que eu não trabalharia na chapelaria outra vez? Eu pesei a proposta. Era mais uma chance de trabalhar antes da Srta. Shay se lembrar de que eu ainda não lhe entregara a certidão de nascimento. Por outro lado, eu sairia do treinamento para Coelhinha Garçonete às seis e começaria uma jornada integral às sete e meia. Meus pés continuavam tão inchados que eu mal conseguia calçar os saltos dez exigidos e estava com um curativo enrolado na cintura no local onde a fantasia apertara e ralara minha pele. Decidi apostar que não seria descoberta durante mais algum tempo e expliquei meu cansaço a Sheralee. Será que não daria para ela encontrar outra?</p>
<p>— Vou tentar — ela disse, aborrecida. — Mas se não conseguir, estou contando com você.</p>
<p>Tomei o elevador até o mezanino mais uma vez e caminhei até a escada em caracol. Descer aquela escadaria, fantasiada, em plena luz do dia, me pareceu ainda mais surrealista com dúzias de transeuntes em seu horário de almoço olhando para dentro. Um dos chefes de seção me aguardava na base da escada.</p>
<p>— Suba e desça outra vez — ele disse, mostrando a multidão que se juntava na rua. — Refresque os olhos desse pessoal.</p>
<p>De acordo com a bíblia da Coelhinha, desobedecer um chefe de setor equivalia, automaticamente, a quinze deméritos. Procurei uma desculpa.</p>
<p>— Olhe — eu disse. — Estou atrasada para o encontro com um cliente Número Um.<br />
— Vá em frente, pequena — ele disse, sorrindo com aprovação— Mexa-se.</p>
<p>Desci as escadas e caminhei para o fundo do lobby, onde se encontrava o Playmate Bar, local do treinamento. Ele estivera escuro e deserto quando eu entrara nele por ocasião de minha primeira entrevista e a parede por trás do bar reluzia com ampliações de transparências coloridas de Coelhinhas seminuas da revista Playboy.</p>
<p>Dirigi-me à área de serviço, ao fundo do bar, para arrumar uma bandeja na qual coloquei uma toalhinha de bar, um isqueiro Playboy e todos os outros itens exigidos pela Escola de Coelhinhas. Minha Coelhinha Treinadora me entregou suas comandas e me mandou segui-la enquanto visitava suas mesas. Ao chegar a cada mesa, ela dizia: &#8220;Esta é a Coelhinha Marie e ela é uma Coelhinha em treinamento&#8221;. Dois homens me disseram que se eu fizesse tudo o que eles mandassem eu iria bem e que a primeira coisa a fazer seria livrar-me da mal humorada Coelhinha Treinadora.</p>
<p>— Não se preocupe com esses imbecis. Passam a tarde inteira enchendo a cara e se acham muito espertos.</p>
<p>Perguntei se eles não poderiam ser homens da Willmark. Se não estariam sendo difíceis apenas para testá-la.</p>
<p>— Não seja tola. E fácil identificar os homens da Willmark. Eles nunca tomam mais que um drinque.</p>
<p>Duas de suas mesas estavam vazias e ela me mandou atender quem quer que se sentasse nelas. Meus dois primeiros clientes carregavam pastas plásticas e usavam buttons de veteranos de guerra nas lapelas. Aproximei-me deles, cheia de confiança, e embarquei direto no ritual de garçonete.</p>
<p>— Boa tarde, senhores, eu sou sua Coelhinha, Marie — eu disse, e coloquei um guardanapo diante de cada homem (&#8220;este procedimento indica ao chefe do setor quais clientes já foram servidos&#8221;), tendo o cuidado de olhar direto para eles ao fazê-lo (&#8220;olhe nos olhos do cliente imediatamente&#8221;). — Eu poderia ver seus chaveiros, por favor?—Um dos clientes me entregou o chaveiro do Coelhinho junto com a chave de um quarto no Hotel Astor. Eu a devolvi e comecei a preencher a comanda.<br />
— Bem — ele disse, batendo na mesa, deliciado. — Pelo menos eu tentei.<br />
— E verdade — disse o outro. — Você não pode nos dar seu endereço mas nada impede que se lembre do nosso.</p>
<p>Enchi os copos de gelo, gritei o pedido de dois Old Fashioneds no bar e perguntei como devia colocar o &#8220;lixo&#8221; necessário nos drinques a gíria apropriada para enfeites de copo. </p>
<p>— Com as mãos, tá pensando o quê? — disse o barman. Peguei duas rodelas de laranja e cutuquei uma cumbuca já cheia de suco até encontrar duas cerejas. Com os drinques equilibrados na bandeja eu me aproximei dos dois veteranos.<br />
— Você é casada? — perguntou o batedor de mesas. Respondi que não. — Bem, que importância teria se fosse? Eu também sou casado! — Enfiando o quadril na mesa, dobrei os joelhos, inclinei o corpo para trás dando o Mergulho da Coelhinha e coloquei os drinques direto nos guardanapos. Senti-me como uma idiota.<br />
— Você está se saindo muito bem — minha Coelhinha Treinadora sussurrou com doçura e gritou: — Um J&amp;B, uma Coca-Cola e dois martínis — para o barman.</p>
<p>Atendi outros três grupos, todos homens. Dois disseram &#8220;Se você é minha Coelhinha, eu posso levá-la para casa?&#8221; Outro me perguntou se minha foto estava sobre o bar. Os veteranos me deixaram um dólar de gorjeta. Agradeci e disse que eram meus primeiros fregueses. O batedor de mesa deu um soco no braço do colega e se dobrou de tanto rir.<br />
— Esta garota — ele disse, ainda às gargalhadas —, é uma Coelhinha virgem! — Ele secou as lágrimas dos olhos.</p>
<p>Às seis horas devolvi minhas comandas para a Coelhinha Treinadora. Todas as gorjetas das contas pagas com cartão ficariam para ela, presumivelmente como prêmio pelo meu treinamento. Eu disse a ela que os veteranos haviam me deixado um dólar.</p>
<p>— Pode ficar — ela disse, magnanimamente. Eu o enfiei no cofre&#8221;, como vira as outras Coelhinhas fazer, e subi para me trocar. Estava tirando o saco plástico de dentro do decote quando a Srta. Shay entrou na Sala da Coelhinha. Eu jamais a vira aqui. Teriam minhas credenciais sido descobertas? Era possível que não tivesse sabido do meu turno de emergência na chapelaria, mas era provável que soubesse que eu estaria servindo drinques na noite seguinte, de oito à meia-noite. Ela se deteve ao chegar ao meu lado.</p>
<p>— Continue assim — disse ela em tom de confidência. — Ouvi dizer que você é uma ótima Coelhinha.</p>
<p>Decidi perguntar a respeito da &#8220;Outra Marie Ochs&#8221; que ela mencionara na primeira entrevista.<br />
— Que outra Marie Ochs?—ela perguntou, sumindo para dentro do escritório da Mamãe Coelha.<br />
Estou em casa e Sheralee acaba de telefonar avisando que encontrou outra garota para o turno na chapelaria. Minha sorte continua firme.</p>
<p><strong>QUINTA, DIA 7</strong></p>
<p>Cheguei à Sala da Coelhinha uma hora mais cedo para ver se conseguia descobrir alguma coisa a respeito de minhas irmãs coelhas. O jornal as descrevera como universitárias, atrizes, artistas e até mesmo lingüistas. Perguntei a uma Coelhinha que se sentara a meu lado sobre as lingüistas. Ela disse que era verdade, que havia umas estrangeiras trabalhando na sala VIP. (Conforme eu lera na bíblia, &#8220;VIP são as iniciais de <em>Very Important Playboy</em>, é claro&#8221;.) Na verdade, era necessário falar inglês com sotaque estrangeiro para trabalhar no salão em questão, que se especializava em jantares e ceia da meia-noite. E as Coelhinhas que trabalhavam lá ganhavam bem?</p>
<p>— Na verdade não. Só cabem cinqüenta pessoas no salão e como é jantar, o entra e sai é bem menor. E bem melhor servir drinques e se livrar dos boçais rapidinho. — Então perguntei a respeito das universitárias.</p>
<p>— Ah, claro. Acho que tem umas três ou quatro que freqüentam aulas durante a semana e trabalham nos fins de semana.</p>
<p>E como é que elas conseguiam trabalhar só nos fins de semanas, as noites de maior movimento e de melhores gorjetas?</p>
<p>— Escuta aqui, colega, tem gente aqui que pode escolher os horários que quiser e o resto tem de agüentar uma semana de almoços ou aquela porcaria de chapelaria. Na maioria são as garotas de Chicago ou alguém que tem prestígio junto à gerência.<br />
.<br />
Perguntei se isso não seria por estarem trabalhando há mais tempo-</p>
<p>— Claro — ela disse, procurando um lugar para colocar as orelhinhas em cima do cabelo armado. — Só que tal sistema não deveria existir. &#8220;Vocês são todas tratadas da mesma forma&#8221;, é isso. que nos dizem.</p>
<p>Perguntei o que ela fizera antes de se tornar Coelhinha.<br />
— Nada de mais. Fui modelo um tempo.<br />
E o que ela esperava que ser Coelhinha lhe traria?</p>
<p>Pensei que talvez desse para economizar algum dinheiro para tirar umas fotos e fazer um book para poder virar modelo de verdade. Mas depois de três meses fazendo isso aqui, quero mesmo é me casar. Tem caras para os quais eu nem olharia antigamente que hoje em dia não me parecem tão ruins assim.</p>
<p>Fui para o outro lado da mesa, onde quatro garotas comiam rosquinhas e bebiam chocolate (&#8220;comer na Sala da Coelhinha&#8230; cinco deméritos&#8221;), e me apresentei como sendo uma Coelhinha nova. Todas se apresentaram pelo primeiro nome. Elas pareceram satisfeitas com a interrupção e me ofereceram uma rosquinha. Perguntei mais uma vez a respeito das universitárias.</p>
<p>— É, tem mesmo algumas por aí — disse uma delas. — Eu conheci uma outro dia que está fazendo um curso de fotografia.</p>
<p>Perguntei o que elas haviam feito antes de se tornarem Coelhinhas e o que gostariam de fazer no futuro. Três delas disseram que gostariam muito de ser modelo — não de alta-costura e sim para anúncios ou para confecções. A quarta disse que era casada, que tinha um bebê e que estava apenas ganhando uns trocados como Coelhinha porque não tinha treinamento para mais nada. Elas fizeram perguntas a meu respeito e repeti o que escrevera no formulário de solicitação de emprego, um histórico provável porém nada impressionante para uma Coelhinha: que eu trabalhara como garçonete (era verdade, embora durante a faculdade), que eu dançara em boates e que sonhara em ser bailarina profissional um dia (também era verdade, embora eu tenha precisado trocar algumas datas para poder diminuir a idade) e que meu trabalho mais recente fora como secretária (não era verdade, mas era a única coisa para a qual eu conseguira arrumar referências).</p>
<p>—  Nossa, você já fez coisa à beça — disse a candidata a modelo de confecção. — Se você sabe bater à máquina para que diabos quer ser Coelhinha?</p>
<p>Eu disse a elas que tudo que eu ouvira dizer a respeito do clube me parecera magnífico. Li para elas o mais recente Playboy Club News: nossas garotas não abrem mão de salários altos pelo glamour. Uma Coelhinha ganha facilmente duas vezes o salário semanal de uma secretária&#8230; Sem contar a vantagem a mais que é a possibilidade de ser descoberta. Muitas Coelhinhas se transferiram para o ramo artístico e hoje podem ser vistas em filmes, em shows ou como modelos&#8230;&#8221;Fez-se um breve silêncio.</p>
<p>— Bem&#8230; É verdade — disse uma delas. — Se eles dizem isso é porque deve ter acontecido com algumas garotas. — Uma outra disse que uma das Coelhinhas de Chicago saíra na capa da Playboy há mais ou menos um ano e que estava para sair outra vez logo logo.</p>
<p>— É isso aí — disse a terceira. — Mas ouvi dizer que é só porque estão com poucas Coelhinhas e estão tentando recrutar mais. Eram quase oito da noite, hora de vestir a fantasia laranja brilhante (esperava que fosse mais confortável do que a azul-rei) para<br />
servir drinques na Sala de Estar. Mais uma vez eu tinha uma Coelhinha Treinadora cujas comandas eu usava. Também fiquei com um grupo de mesas só para mim, já que uma das Coelhinhas Garçonetes faltara.</p>
<p>— Era só o que faltava — comentou a Coelhinha Treinadora. — Uma garota sofre um acidente de carro e tinha de ser justamente no meu turno.</p>
<p>Minhas mesas encontravam-se no &#8220;Cantinho dos Quadrinhos&#8221;, um canto decorado com quadrinhos emoldurados tirados da Playboy. Como era bem ao fundo do bar, com quatro degraus a serem subidos, era considerada uma área difícil. A técnica da Coelhinha para carregar bandejas envolvia ter de carregar as bandejinhas redondas equilibradas lá em cima, na palma da mão esquerda, enquanto olhávamos direto para frente andando de maneira elegante e levemente rebolativa. O Passo da Coelhinha. Parecia ser muito simples, mas. depois de uma hora carregando bandejas cheias de cubos de gelo, garrafas de drinques semiprontos e meia dúzia de drinques de cada vez, meu braço esquerdo começou a tremer e o sangue parecia que jamais voltaria às pontas dos dedos.</p>
<p>Além do mais, eu ainda não fora paga. Reclamei para minha Coelhinha Treinadora mas ela disse que eu não tinha motivos para reclamar. As Coelhinhas contratadas antes da inauguração do clube, em dezembro, haviam treinado durante três semanas sem serem pagas.</p>
<p>Realmente aprendi muito. Atendi 22 clientes, derramei dois drinques (um em mim mesma e um no cliente) e recebi duas cantadas. Os músicos do bar me ensinaram que existe o &#8220;Tema do Playboy” com a seguinte letra:</p>
<p><em>Se o seu amor é um Playboy<br />
Afrouxe as rédeas um pouquinho.<br />
Se os olhos dele vagarem, minha querida,<br />
Seu amado não passa<br />
De uma criaturinha ranzinza<br />
Que se derrete por um pouco de brilho.<br />
Então, se você estiver amarrada,<br />
Lembre-se de que ele é um Playboy<br />
E que a garota que fizer dele um homem caseiro<br />
O terá para sempre.<br />
Fale sempre docemente,<br />
Por mais indiscreto que ele seja<br />
E nunca deixe que a vida perca a leveza.</em></p>
<p>Uma das muitas tarefas dos homens da Willmark é se certificar de que este hino seja tocado no começo e no fim de cada show, todas as noites — tal qual um hino nacional.</p>
<p><strong>SEXTA-FEIRA, DIA 8</strong></p>
<p>Terminei minha primeira noite como Coelhinha Garçonete profissional e minhas atenções estão quase totalmente voltadas para os meus pés. Doem como dentes podres. Estão tão inchados que não consigo calçar os tênis. Meu maior medo é de que a curvatura tenha desabado. Não obstante, lembranças desta noite vão e voltam em minha mente.</p>
<p><em>Item</em>. Eu servi todas as mesas do Cantinho dos Quadrinhos, o dobro de ontem, das sete e meia da noite às quatro da manhã, sem descanso. Equilibrando bandejas abarrotadas com uma das mãos, eu ja tinha feito dezesseis viagens de ida e volta ao bar até que perdi as contas. Três clientes deixaram cair drinques, gelados, nas minhas costas e eu só comi duas azeitonas a noite inteira. Por que será que não desisti, não me joguei no chão e esperneei ou pedi demissão? Queria saber.</p>
<p><em>Item</em>. O barman da Sala de Estar é um artista. Rápido, elegante, exato e calmo, ele controlou a sala praticamente sozinho. &#8220;Na semana passada, incluindo horas extras e bônus, recebi 180 dólares&#8221;,ele me disse. &#8220;E olha que eu sou o barman mais bem pago da casa.&#8221;Perguntei a ele por que não pedia demissão. &#8220;É exatamente o que vou fazer&#8221;, ele respondeu.</p>
<p><em>Item</em>. Os funcionários beliscam comida roubada do bufê dos clientes em pratos comunitários. Somos uma grande família.</p>
<p><em>Item</em>. Recebi 29,85 dólares de gorjeta, tudo em notas de um dólar e moedas. Aumentam a prosperidade mas tornam a fantasia desconfortável. Perdi dois quilos ontem à noite.</p>
<p><strong>SÁBADO, DIA 9</strong></p>
<p>A curvatura do meu pé não desabou. Calcei galochas (os únicos sapatos grandes e largos o bastante para caberem meus pés) e fui ao calista (&#8220;Todas as garotas do Copa são minhas clientes&#8221;), que me disse não haver nada de errado com meus pés, a não ser trabalho demais, saltos muito altos e cansaço muscular. &#8220;Com um trabalho desses&#8221;, ele disse, todo contente, &#8220;seu pé é bem capaz de aumentar algumas pontuações.&#8221;</p>
<p>Trabalhei na Sala de Estar outra vez esta noite. Peguei emprestado um par de sapatos três pontuações acima da minha, protegi minhas costelas com gaze por dentro da fantasia e convenci os auxiliares de garçom a me ajudar a carregar as bandejas mais pesadas. Só assim consegui sobreviver à noite. Mas fui recompensada com as seguintes informações:</p>
<p>1. Uma Coelhinha que já tenha posado para o pôster central da revista Playboy recebe cinco dólares a mais, por dia, do que as outras. Ela também é obrigada a se apresentar aos clientes da seguinte forma: &#8220;Eu sou Sue, Coelhinha da revista Playboy&#8221; em vez de &#8220;Eu sou sua Coelhinha, Sue&#8221; e precisa autografar o pôster em questão se o cliente pedir.</p>
<p>2. Com o intuito de apaziguar os ânimos dos nova-iorquinos quecompraram chaveiros esperando freqüentar um clube privé, Hugh Hefner declarou que clientes não-associados &#8220;devem obter um passe provisório válido apenas por uma noite e precisam pagar no ato do pedido, em espécie&#8221;. Ao contrário das instruções do Sr. Hefner, as Coelhinhas são encorajadas a cobrar depois de servirem os drinques, mas poucas fazem isso. A maioria deixa que os clientes acumulem a dívida e paguem tudo de uma vez como qualquer portador de chaveiros. Para dizer a verdade, as Coelhinhas preferem servir não-sócios por saberem que estes pagarão em espécie e que a gorjeta das contas pagas com cartão serão compartilhadas com a casa.</p>
<p>3. Coelhinhas e serventes vivem um relacionamento de amor e ódio. Um bom servente pode enriquecer uma Coelhinha se ele mantiver as mesas limpas para a chegada de novos clientes. Um mau servente pode roubar as gorjetas em espécie antes que a Coelhinha a veja e insistir que ela tomou um &#8220;cano&#8221; do cliente. Assim, uma Coelhinha poderá passar uma noite inteira bajulando um moleque que ela nem sonharia em tratar bem fora do clube. E um relacionamento complicado, mas íntimo, nos mesmos moldes de muitas mulheres e seus cabeleireiros, um sabe tudo sobre a vida do outro.</p>
<p>4. Muitas Coelhinhas acham sacos plásticos perigosos como enchimento porque fazem suar, e conseqüentemente perder peso quando mais se precisa de energia. Dão preferência a lenços de papel e algodão.</p>
<p>5. A forma de conseguir uma comidinha, mesmo sendo Coelhinha Garçonete, é afaná-la do bufê dos clientes (sob pena de demissão instantânea, é o que diz um memorando recente) e escondê-la na despensa. Assim você belisca um pouco cada vez que passar. Quase ninguém vai à sala dos funcionários para comer ensopado.</p>
<p><strong>DOMINGO, DIA 10</strong></p>
<p>Cheguei a casa às quatro da manhã e tinha de estar de volta ao clube, fantasiada, às onze para posar para fotos de publicidade. A princípio fiquei furiosa (são 25 deméritos para quem faltar), mas uma vez que já levantara e saíra de casa, fiquei contente. Era a primeira vez em quase três dias que eu via a luz do dia.</p>
<p>O fotógrafo da Playboy estava ajeitando uma garota na imensa e curvilínea escadaria ao fundo do lobby. Cada uma de nós tirava uma série de fotos ridículas: sentada nas escadas com as pernas esticadas, em pé com a mão no corrimão (&#8220;chegue o corpo para frente um pouquinho, querida, só da cintura para cima&#8221;), e descendo as escadas com a bandeja lá no alto.</p>
<p>Perguntei ao fotógrafo para que serviriam as fotos. &#8220;Não sei&#8221;, respondeu. &#8220;Ordens de Chicago.&#8221; Por força do hábito, as Coelhinhas novas tinham de assinar uma cessão de direitos de todas as fotos. Perguntei se nossas fotos acabariam em alguma promoção do clube ou na própria revista. Ninguém sabia dizer.</p>
<p>Uma voz me chamou das profundezas do Bar. Era a Srta. Shay, sentada à mesma mesa na qual eu a vira da primeira vez aguardando para entrevistar candidatas a Coelhinha. Os fotógrafos pediram para colocarem música. &#8220;Marie tocará para nós&#8221;, ela disse. &#8220;Marie toca piano muito bem, não é, querida?&#8221; Não, respondi, não sei tocar nada. &#8220;Mas eu tenho certeza de que você me disse que tocava piano durante a entrevista&#8221;, ela disse com firmeza.</p>
<p>O esquecimento de minhas credenciais, a outra Marie Ochs e agora a história do piano. Pensei nas diversas vezes em que eu vira a aparentemente eficiente Srta. Shay chamar serventes pelo nome errado. Pela primeira vez eu tive a certeza de que, a não ser que alguém me reconhecesse, eu trabalharia no Playboy Club o tempo que quisesse.</p>
<p>Lá fora o sol brilhava e me perguntei quanto tempo eu gostaria de ficar. Já que Marie não seria descoberta, Marie teria de pôr um fim à sua própria carreira. De acordo com os horários desta semana, eu teria de trabalhar no almoço, quatro horas por dia, e só. Não era incumbência das mais invejadas mas me daria mais tempo para conversar com as Coelhinhas.</p>
<p>Decidi que Marie viveria até sexta-feira.</p>
<p><strong>SEGUNDA, DIA 11</strong></p>
<p>Um artigo do Metropolitan Daily foi o assunto do dia na Sala da Coelhinha. Duas ex-Coelhinhas estão processando o clube devido a gorjetas atrasadas e &#8220;informação enganosa&#8221; em relação à quantia que um Coelhinha pode ganhar. Uma delas disse ao repórter que ela recebera cinco ameaças de morte, imediatamente após entrar com a ação.</p>
<p>—  Eu conheci Phyllis Sands — disse uma Coelhinha. — Mas não sei quem é essa Betsy McMillan que recebeu as ameaças. — Ela olhou bem as fotos das duas. — Elas se certificaram de que as fotos eram boas para publicação.<br />
— Por que, ela achava que as tais ameaças podiam ser mero golpe publicitário?<br />
— Ué, e eu lá sei? — ela disse, sacudindo os ombros. — Vai ver que não disseram a ela que o clube ficaria com metade das gorjetas ou talvez o salário seja muito mais baixo do que ela esperava. Mas, por outro lado, talvez ela tenha mandado o namorado fazer ameaças pelo telefone só para seu nome aparecer no jornal. Vai saber!</p>
<p>Desci até a Sala de Almoço e comecei a pôr a mesa. Das seis outras Coelhinhas que trabalhavam ali, eu conhecia três: uma Coelhinha chinesa, uma outra que anunciou em alto e bom som que não precisava encher o decote e a ruiva grandalhona com Voz de bebê que eu conhecera no primeiro dia, na Sala da Coelhinha. O chefe do setor dividiu as mesas e nos sentamos na beirada do palco para esperar os clientes. A Coelhinha sem enchimento comentou que as gorjetas eram bem melhores em Chicago.</p>
<p>— Os caras são mais burros por lá — ela disse. — Quer dizer, é mais fácil fazer com que acreditem que você sairia com eles, assim te dão uma gorjeta maior.<br />
— O clube de Miami também é uma droga — disse Vozinha de Bebê. — Uma vez nós nos juntamos e avisamos que iríamos embora se não nos pagassem melhor. Eles nos mandaram ir em frente, contratariam outras garotas.<br />
— Será que não foi um blefe duplo, hein? — comentei.<br />
— E verdade. Ia custar caro para o clube se nós todas nos demitíssemos ao mesmo tempo. Mas eles iam fazer o quê? — disse uma Coelhinha de cabelos escuros.<br />
— Ah, sei lá. Talvez mandassem buscar Coelhinhas em outros clubes — disse Vozinha de Bebê. — A gente sempre se dá mal. — Havia um piano no meio do palco e ela fingiu que estava tocando Jazz para a sala toda. — Lá-lá-lá-ri-rá — ela cantarolou.</p>
<p>Uma Coelhinha de cabelos compridos foi até lá e fingiu, com enorme destreza, que estava fazendo um striptease.<br />
— Me pediram para posar para a revista uma vez — ela contou. Agora não chamariam mais. Eu emagreci tanto&#8230;</p>
<p>A Coelhinha de cabelos escuros disse a ela que não tinha importância porque eles sempre faziam foto-montagem. Ela própria conhecia a garota que fazia os seios. Eu disse que duvidava muito que fosse verdade, que há limites para o que se pode fazer com airbrush.<br />
— E eles devem usar garotas diferentes — disse a stripper. —. Os seios que saem na revista são de tamanhos diferentes.<br />
— Eles sã-ããão de tamanhos diferentes — cantou Voz de Bebê, levantando-se para fazer seu próprio striptease. Ela tirou a gravata borboleta, a gola e os punhos e os jogou para fora do palco seguindo cada movimento com um experiente rebolado.<br />
— O.K., garotas — disse o chefe do setor com a voz gelada. — Chega. — Três clientes de meia-idade, os primeiros do corre-corre da hora do almoço, encontravam-se à porta, apertando os olhos para enxergar na penumbra do salão.<br />
— Pronto — disse Vozinha de Bebê, enojada. — Os babacas chegaram.</p>
<p>Servir o almoço durante quatro horas não seria o bastante para reabrir todas as feridas dos meus pés. Mas as pilhas e mais pilhas de rosbife (é só isso que servimos, e é por isso que o chefe deste setor é chamado de &#8220;O Rei do Rosbife&#8221;) faziam pesar mais a bandeja do que os drinques. Os clientes eram todos homens. As esposas e namoradas que apareciam à noite estavam ausentes nos almoços. Um cliente me disse várias vezes que era vice-presidente de uma companhia de seguros e que me pagaria para servir durante uma festa particular em seu hotel. Um outro se levantou da cadeira, depois do quarto martíni, e se pôs a cafungar o meu pescoço. Quando me afastei ele se zangou de verdade.</p>
<p>— Por que você acha que eu venho aqui? — indagou. — Para comer rosbife?<br />
Às três, quando a última mesa fora limpa, eu voltei à Sala da Coelhinha. A chefe de guarda-roupas me parou.<br />
— Minha filha — ela disse —, essa fantasia está enorme em você.</p>
<p>Era verdade, eu perdera quatro quilos desde que a vestira pela primeira vez. Era também verdade que, pela primeira vez, estava apenas tão desconfortável quanto uma cinta apertada. Ela apertou a cintura com alfinetes e me mandou tirar a fantasia.</p>
<p>— Vai estar cabendo como uma luva quando você chegar para trabalhar amanhã. Vou ter de apertar cinco centímetros de cada lado.</p>
<p>Eu tirei o Playboy Club News do meu armário e li em voz alta: &#8220;O mundo do Playboy Club é cheio de bons shows, lindas garotas e playboys que gostam de se divertir. É uma festa contínua. As alegres Coelhinhas sentem-se como se fossem um dos convidados&#8230;&#8221;</p>
<p>Minhas colegas da Sala de Almoço começaram a rir.</p>
<p>— E que festão — disse Vozinha de Bebê. — Nem sair com os clientes se pode.<br />
Perguntei se algum homem da Willmark já tentara pegá-la.<br />
— Nããão — ela respondeu, pensativa. — Mas um cara ofereceu duzentos dólares para uma garota se ela prometesse encontrá-lo depois do trabalho. E ela aceitou—Vozinha de Bebê disse com desprezo. — Ela devia saber que só mesmo um imbecil ou um homem da Willmark ofereceria dinheiro <em>antes</em>.</p>
<p><strong>TERÇA, DIA 12</strong></p>
<p>Duas das minhas colegas da Escola da Coelhinha, Gloria e a assistente de mágico, juntaram-se a nós na Sala de Almoço. Peguei-me explicando como servir o rosbife e como convencer os clientes de que estava malpassado, bem-passado ou ao ponto, embora estivessem todos, na verdade, idênticos.</p>
<p>Era dia do aniversário de Abraham Lincoln e o movimento estava fraco. Ouvi a Coelhinha sem enchimento explicar que gostava de homens mais velhos porque &#8220;eles te dão dinheiro&#8221;.</p>
<p>— Saí uma vez com um velho que conheci no clube e arrumei mais duas Coelhinhas para os amigos dele. Sabe que ele me deu um cheque de cem dólares só porque foi com a minha cara?</p>
<p>A Coelhinha sem enchimento explicou também que um dos executivos da casa lhe havia dado setecentos dólares para comprar um vestido.</p>
<p>— Eu tinha quinhentos dólares e comprei um vestido de 1.200 -e ele me levou a uma festa vestindo o tal vestido.</p>
<p>Uma Coelhinha de cabelos escuros disse que conhecia o mesmo cara de Chicago.</p>
<p>— Você e todo mundo — disse a Coelhinha sem enchimento.<br />
— Se você fosse contar todas as Coelhinhas que saíram com o cara&#8230;<br />
A Coelhinha de cabelos escuros estava pensativa.<br />
— Nós tivemos um caso muito louco durante três semanas. Foi loucura mesmo. Eu deveria saber que não ia dar em nada&#8230;<br />
— <em>Todas</em> as garotas acham que vai dar em alguma coisa — disse a Coelhinha sem enchimento em tom de consolo. — Mas nunca dá.<br />
— Conversaram sobre o apartamento imenso do executivo, sobre sua fortuna e impulsos românticos. Ele me pareceu um exterminador.<br />
Sem Enchimento se levantou para servir um cliente e a Coelhinha de cabelos escuros olhou para ela com desdém.<br />
— Duvido que ele tenha dado setecentos dólares para ela -<br />
declarou com firmeza. — <em>Ninguém</em> arranca um centavo <em>dele</em>.</p>
<p><strong>QUARTA, DIA 13</strong></p>
<p>Completei a lista de enchimentos de decotes:</p>
<p>1. Lenços de papel<br />
2. Sacos plásticos<br />
3. Algodão<br />
4. Rabos de Coelhinhas<br />
5. Espuma<br />
6. Lã de carneiro<br />
7. Absorventes íntimos cortados ao meio<br />
8. Lenços de seda<br />
9. Meias de ginástica</p>
<p>Descobri também que não só podemos sair com clientes Número Um como com qualquer um a quem estes nos apresentem. Podemos sair também com quem quer que conheçamos nas festas de Vic Lownes. Mas, no entanto, há limites para esta pesquisa.</p>
<p><strong>SEXTA, DIA 15</strong></p>
<p>A Sala de Almoço estava cheia de homens bebendo sem parar porque é sexta-feira. Carreguei pratos de rosbife e a alternativa especial de sexta-feira: truta. Coelhinha Gloria estava de pé, com uma bandeja cheia de xícaras esperando que a cafeteira fosse enchida.</p>
<p>— Sabe o que nós somos? — perguntou, indignada. — <em>Garçonetes</em>l</p>
<p>Sugeri que nos juntássemos ao sindicato.</p>
<p>— Sindicatos só servem para tirar o seu dinheiro e não deixar que você trabalhe dois turnos — disse Vozinha de Bebê.</p>
<p>A assistente de mágico estava servindo uma mesa ao lado da minha e concordava, sinceramente, com um cliente que dizia que nossas fantasias eram &#8220;tão inteligentes e realçam tão bem as formas femininas&#8221;. Ela tentava tanto fazer as coisas com &#8220;graça&#8221;, como mandava a bíblia, que não era nada eficiente como garçonete. Ao nos programar com o que era, nas palavras de uma outra Coelhinha, &#8220;um glamourzinho de merda&#8221;, o clube muitas vezes se prejudicava.</p>
<p>Foi meu último dia de almoços e isso me deixava muito contente. De alguma forma, os puxões nos rabinhos, as cantadas, os beliscões e os olhos esbugalhados eram bem mais deprimentes quando o sol brilhava além das paredes daquela sala sem janelas.</p>
<p>Encontrei Sheralee em seu escritório e contei a ela a história que eu escolhera porque deixava as portas abertas caso eu precisasse de mais informações: minha mãe estava doente e eu precisava passar algum tempo em casa.</p>
<p>— Justo <em>agora</em> que estamos com uma falta enorme de Coelhinhas! —ela exclamou, consternada, e perguntou quando eu estaria de volta.</p>
<p>Eu disse que não sabia, mas que ligaria. Ela me entregou o salário da primeira semana: 35,90 dólares pelas duas noites na Sala de Estar. Perguntei a respeito da primeira noite na chapelaria.</p>
<p>— O treinamento não é remunerado — ela disse. Protestei que não fora treinamento. — Vou falar com o contador — concordou, sem muita convicção.</p>
<p><strong>QUINTA, DIA 21</strong></p>
<p>Quase uma semana se passou. Liguei para Sheralee para dizer que voltara para buscar algumas roupas mas que precisava pedir demissão. Ela me implorou para trabalhar no bar mais uma noite. Por algum motivo (será que eu aprenderia alguma coisa nova?) eu me peguei aceitando.</p>
<p><strong>SEXTA, DIA 22</strong></p>
<p>Mas foi exatamente a mesma coisa:</p>
<blockquote><p>
CHEFE DE SETOR: &#8220;AS suas mesas são aquelas: quatro de quatro e três de dois&#8221;.<br />
CLIENTE: &#8220;Se você é minha Coelhinha, posso levá-la para casa?&#8221;<br />
BARMAN: &#8220;Eles não param de mudar o tamanho das doses: sobe, desce, desce e sobe. É de enlouquecer&#8221;.<br />
COELHINHA: &#8220;Trabalhei na festa.privé da LoLo Cola e ganhei seis latas de brinde. Grande coisa&#8221;.<br />
CLIENTE: &#8220;Estou no Hotel New Yorker. Quarto 625. Você vai lembrar?&#8221;<br />
HOMEM: &#8220;Se mocinhas fossem grama, o que seriam os mocinhos?&#8221;<br />
COELHINHA: &#8220;Deixa eu ver&#8230; Cortadores de grama?&#8221;<br />
HOMEM: &#8220;Não. Gafanhotos!&#8221;</p>
<p>Aviso na parede da despensa:<br />
ESTE É O SEU LAR. NÃO JOGUE BORRA DE CAFÉ NA PIA.</p>
<p>SERVENTE: &#8220;Tem dinheiro saindo pelos lados da sua fantasia, meu anjo&#8221;,<br />
COELHINHA: &#8220;Ele é mesmo um cavalheiro. Trata você bem, quer tenha dormido com ele ou não&#8221;.</p></blockquote>
<p>Eram quatro da manhã quando entrei na Sala da Coelhinha para tirar a fantasia. Uma loura bonita juntava duas cadeiras para dormir. Ela prometera substituir outra garota no almoço, depois de oito horas no bar, e não teria tempo de ir até em casa. Perguntei por que ela fazia uma coisa dessas.</p>
<p>— Bem, a grana não é ruim. Ganhei duzentos dólares na semana passada.</p>
<p>Finalmente eu encontrara alguém que ganhava o mínimo do salário prometido. Mas para isso ela trabalhava sem parar.</p>
<p>No escritório de Sheralee havia um quadro com uma lista das cidades onde seriam inaugurados os próximos clubes (Pittsburgh, Boston, Dallas e Washington) e um papel amarelo intitulado O QUE É UMA COELHINHA?</p>
<p>&#8220;Uma Coelhinha do clube&#8221;, dizia o texto, &#8220;assim como a Coelhinha da revista é&#8230; linda, atraente&#8230; Nós faremos o que estiver em nosso poder para transformar você, Coelhinha, na garota mais invejada da América por trabalhar no lugar mais glamouroso e excitante do mundo.&#8221;</p>
<p>Entreguei minha fantasia pela última vez.<br />
— Tchauzinho, querida — despediu-se a loura. — Te vejo nos quadrinhos.<br />
— 1963</p>
<p><strong>PÓS-ESCRITO</strong></p>
<p><em>Efeitos deste artigo a curto prazo:</em></p>
<p>1. Recebi uma longa carta de Hugh Hefner dizendo que &#8220;a história do exame médico ao qual as garotas se submetiam antes de começar a trabalhar me levaram a eliminá-lo&#8221;. (Ele continuava a achar que era &#8220;uma boa idéia&#8221;, e observou que não era a primeira vez que o exame era &#8220;mal-interpretado e transformado em algo duvidoso&#8221;.) Ele incluiu também os primeiros quatro mandamentos de sua &#8220;Filosofia do Playboy&#8221;. Durante grande parte da carta de três páginas, no entanto, ele insistiu em que não se importara nem um pouco com o artigo.</p>
<p>2. Uma ação judicial, por calúnia e difamação, no valor de um milhão de dólares foi movida contra mim e contra um jornalzinho de Nova York, hoje extinto, que comentara meu artigo e o fato de o gerente do clube de Nova York ter sido acusado de manter claras relações com a Máfia. Embora tais alegações não tivessem saído do meu artigo, incluíram-me no processo como forma de me incomodar. Passei muitas horas desagradáveis depondo e sendo ameaçada com punições. Finalmente, o jornal fez um acordo sem me mencionar. Outros jornalistas me contaram que este tipo de ação, com ou sem base na verdade, era uma forma usada com freqüência para desencorajar ou punir jornalistas.</p>
<p>3. Servi de testemunha para a Divisão de Bebidas Alcoólicas do estado de Nova York para identificar as instruções escritas que me foram passadas como Coelhinha para que servissem de prova num processo contra o Playboy Club por ter um alvará de funcionamento como bar público embora se anunciasse na imprensa como clube privé. Isto se relacionava ao fato do Playboy Club ter subornado autoridades para obter o alvará para a venda de bebidas alcoólicas e em seguida ter usado as provas deste suborno contra as mesmas autoridades. A Divisão de Bebidas Alcoólicas do estado de Nova York contra-atacou com o processo do público versus privé no qual eu servi de testemunha. Os advogados me disseram que outras Coelhinhas haviam sido procuradas mas tiveram medo de testemunhar, até mesmo tendo apenas que identificar as instruções escritas nas quais nos instruíam a ressaltar a natureza privada e exclusiva do clube. Eu assistira a tantos julgamentos em filmes nos quais a justiça vencia no final que concordei. Depois do advogado do Playboy Club ter passado um tempo considerável tentando provar que eu era mentirosa, uma mulher de moral duvidosa, comecei a entender por que as outras Coelhinhas haviam se recusado a testemunhar. No final, o Playboy Club manteve o alvará.</p>
<p>4. Muitas semanas de ligações obscenas e ameaçadoras feitas por um homem com grande conhecimento interno do Playboy Club.</p>
<p>5. O súbito desaparecimento de matérias jornalísticas sérias porque eu me tornara uma Coelhinha — o motivo não tinha a menor importância.</p>
<p><em>Alguns dos efeitos a longo prazo:</em></p>
<p>1. Meus pés aumentaram uma pontuação devido aos saltos altos e às horas seguidas carregando bandejas pesadas.</p>
<p>2. A satisfação de saber, vinte anos depois, que o estado de Nova Jersey decidira que a Playboy Enterprises não estava apta a operar um cassino em Atlantic City devido ao fato de haverem subornado autoridades para obter um alvará para servir bebidas alcoólicas. Tal decisão perdurará até que a Playboy Enterprises deixe de pertencer ao Sr. Hugh Hefner.</p>
<p>3. A revista Playboy continua a publicar uma foto minha, como Coelhinha, no meio de fotos ainda mais pornográficas de outras Coelhinhas. A versão de 1983 era que meu artigo &#8220;aumentara o número de candidatas a Coelhinha&#8221;. A versão de 1984 trazia uma foto tirada num jantar quando eu levantei os braços e meu vestido de noite escorregou, revelando parte de meu seio. Tratava-se de um jantar beneficente para a Fundação Ms. para Mulheres e também meu aniversário de cinqüenta anos. Nenhuma outra publicação usou essa foto. Mas a Playboy não esquece jamais.</p>
<p>4. Trinta anos de ocasionais telefonemas de Coelhinhas de ontem e de hoje com histórias sobre as condições de trabalho e as exigências sexuais sofridas. Nos primeiros anos, as Coelhinhas se impressionavam com o fato de eu ter usado meu próprio nome no artigo. Uma delas disse ter sido ameaçada &#8220;com ácido atirado na cara&#8221; por ter reclamado das Coelhinhas serem usadas sexualmente. Outra citou ameaça idêntica por ter sugerido que as Coelhinhas se sindicalizassem. Todas ficaram surpresas de encontrar meu nome no catálogo telefônico. Eventualmente, precisei trocar o número e fazer com que não constasse mais do catálogo.</p>
<p>5. Em 1984, foi feita uma dramatização deste artigo para a televisão, estrelando Kirstie Alley, então uma atriz desconhecida, no meu papel como repórter. Tinha um título horrendo &#8220;A Bunny&#8217;s Tale&#8221; (a frase, falada, tem duplo sentido: &#8220;História de uma Coelhinha&#8221; ou &#8220;O Rabo de uma Coelhinha&#8221;), mas o filme era bom. Sua qualidade deveu-se, principalmente, ao fato de a diretora Karen Arthur ter reunido as mulheres não só para ensaiar como também para se conhecerem — algo praticamente inexistente na televisão. Uma antiga Coelhinha do Chicago Playboy Mansion ofereceu-se para ser diretora técnica. Ela vira muitas jovens serem destruídas por drogas e queria ajudar-nos a mostrar a realidade dos bastidores da vida destas mulheres. Mesmo dizendo estar recebendo ameaças pelo telefone, ela ficou no set: uma réplica exata do Playboy Club de Nova York, construído pelos esboços do arquiteto responsável. Dizem que Hugh Hefner usou suas influências na televisão para pressionar a rede ABC a não ir adiante com a produção do filme. Mas o mesmo foi exibido e passou na ABC durante quatro anos e é reprisado até hoje no canal Lifetime. No ano passado uma moça que trabalha num café perto de minha casa me contou que o filme significara muito para ela. Seu namorado também o assistira e finalmente compreendera o que ela passava como garçonete. Isso significou muito para mim. Me dar conta de que toda mulher é uma Coelhinha. Depois que o feminismo entrou em minha vida, parei de me arrepender por ter escrito este artigo. Graças à versão para televisão, tive o imenso prazer de me relacionar com mulheres que talvez não leriam um livro ou uma revista feminista mas que reagiram positivamente às raras condições de trabalho razoáveis e a um grupo de mulheres que se apoiam umas às outras.<br />
1995</p>
<p><strong>FONTE:<br />
STEINEM, Gloria. Eu fui coelhinha da Playboy. In: <em>Memórias da Transgressão</em>: momentos da história da mulher no século XX. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1997. p. 61-108.</strong></p>
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		<title>Memórias da Transgressão</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Jun 2007 22:47:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Feminista</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gloria Steinem]]></category>
		<category><![CDATA[ativismo]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>

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		<description><![CDATA[Um dos textos mais acessados deste blog é &#8220;Se os homens menstruassem&#8220;, da Gloria Steinem. Demorou, mas finalmente consegui um link para o livro completo &#8220;Memórias da Transgressão&#8221;, de onde foi retirado o texto. Trata-se de uma coletânea de artigos escritos ao longo da carreira de Steinem, abordando diversos temas de forma simples e brilhante.
Para [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=feminista.wordpress.com&blog=637095&post=10&subd=feminista&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Um dos textos mais acessados deste blog é &#8220;<a href="http://feminista.wordpress.com/2006/12/26/se-os-homens-menstruassem/">Se os homens menstruassem</a>&#8220;, da Gloria Steinem. Demorou, mas finalmente consegui um link para o livro completo &#8220;Memórias da Transgressão&#8221;, de onde foi retirado o texto. Trata-se de uma coletânea de artigos escritos ao longo da carreira de Steinem, abordando diversos temas de forma simples e brilhante.</p>
<p>Para fazer o download, em formato PDF, use o <a href="http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2007/06/385840.shtml">Mídia independente</a> ou o <a href="//|file|[feminismo]gloria%20steinem%20-%20memorias%20da%20transgressao.pdf|2354470|56B719B16AEBBA4FB4E010DF4535EA29|h=PEPCAH4MNTIPQSEZR44URILWRKICMROQ|/">e-mule</a>.</p>
<p>Índice do livro:</p>
<blockquote><p>
APRENDENDO COM A EXPERIÊNCIA<br />
A Vida nas Entrelinhas 29<br />
Eu Fui Coelhinha da Playboy 61<br />
Em Campanha 109<br />
Irmandade<br />
Reunião de Ex-Alunas 165<br />
A Canção de Ruth (Porque Ela Não Sabia Cantar)</p>
<p>OUTRAS DESCOBERTAS BÁSICAS<br />
Palavras e Mudanças 199<br />
Celebrando o Corpo Feminino 215<br />
A Importância do Trabalho 223<br />
O Fator Tempo 230<br />
Homens e Mulheres Conversando 233<br />
A Política da Alimentação 250<br />
Criando Redes 256<br />
Transexualismo 267<br />
Por que as Jovens São Mais Conservadoras 272<br />
O Erótico vs. o Pornográfico 282</p>
<p>CINCO MULHERES<br />
Marilyn Monroe: A Mulher Que Morreu Cedo Demais 299<br />
Um Vôo com Patrícia Nixon 306<br />
A Verdadeira Linda Lovelace 310<br />
Repensando Jackie 322<br />
Alice Walker: Você Conhece Essa Mulher? Ela Conhece<br />
Você 328</p>
<p>TRANSFORMANDO A POLÍTICA<br />
Houston e a História 351<br />
O Crime Internacional da Mutilação Genital 365<br />
Receitas de Fantasias: Para Alívio Temporário da Dor Causada<br />
pela Injustiça 377<br />
Se Hitler Estivesse Vivo, de que Lado Estaria? 381<br />
Pensamentos Noturnos de um Telespectador 405<br />
Se os Homens Menstruassem 416<br />
Longe da Margem Oposta 420
</p></blockquote>
<img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/feminista.wordpress.com/10/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/feminista.wordpress.com/10/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/feminista.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/feminista.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/feminista.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/feminista.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/feminista.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/feminista.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/feminista.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/feminista.wordpress.com/10/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/feminista.wordpress.com/10/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/feminista.wordpress.com/10/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=feminista.wordpress.com&blog=637095&post=10&subd=feminista&ref=&feed=1" /></div>]]></content:encoded>
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		<title>Trechos do artigo &#8220;A Verdadeira Linda Lovalace&#8221;, de Gloria Steinem</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Dec 2006 15:46:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Feminista</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8221;&#8217;Trechos do artigo A Verdadeira Linda Lovalace:&#8221;&#8217;  	 
Lembra-se de Garganta Profunda? Aquele filme que transformou o pornô em chique&#8230; Embora tenha sido feito em 1972 como filme de segunda que custou apenas 40 mil dólares e levou uns poucos dias para ser realizado, ele terminou a década com uma renda de aproximadamente 600 [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=feminista.wordpress.com&blog=637095&post=1&subd=feminista&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>&#8221;&#8217;Trechos do artigo A Verdadeira Linda Lovalace:&#8221;&#8217;  	 </p>
<p>Lembra-se de Garganta Profunda? Aquele filme que transformou o pornô em chique&#8230; Embora tenha sido feito em 1972 como filme de segunda que custou apenas 40 mil dólares e levou uns poucos dias para ser realizado, ele terminou a década com uma renda de aproximadamente 600 milhões de dólares&#8230; Esta cifra inclui o filme em si, as seqüências, as fitas cassetes, as camisetas, os adesivos de carro e os acessórios sexuais. Na verdade, o filme foi brindado pela mídia com uma aprovação divertida e passou a fazer parte da nossa linguagem e da nossa consciência, quer tenhamos visto o filme ou não. Dos seríissimos jornalistas do caso Watergate&#8230; aos vulgares pornocratas da revista Screw&#8230; transformaram este filme de mau gosto numa piada suja universal e numa central de lucros internacional. 	 </p>
<p>No coração desta piada suja e altamente rentável encontrava-se Linda Lovelace (nascida Linda Boreman)&#8230; Ela oferecia aos espectadores a excitante ilusão de que até mesmo a vizinha da casa ao lado talvez adorasse ser objeto de atos sexuais à moda pornô. 	 </p>
<p><span id="more-1"></span></p>
<p>Usar Linda Lovelace foi idéia de Gerry Damiano, diretor e roteirista de Garganta Profunda. &#8220;A coisa mais incrível a respeito de Linda&#8230; é que ela ainda tem uma aparência doce e inocente&#8221;. Mesmo assim, Peraino (produtor) reclamou que Linda não era a &#8220;loura peituda&#8221; que ele imaginara para o filme. Ele continuou a reclamar até mesmo depois que a mandaram servi-lo sexualmente. 	 </p>
<p>Na verdade, foi ao assistir Linda atuar publicamente como prostituta que Damiano teve a idéia inicial de Garganta Profunda&#8230; Relaxando os músculos da garganta, ela aprendera a receber o mergulho profundo de um pênis sem engasgar; para ela, uma desesperada técnica de sobrevivência, mas para os clientes uma constante fonte de divertimento e novidade. 	 </p>
<p>&#8230;Tratou-se de um instrumento educacional que a teoria freudiana não teve. 	 </p>
<p>Literalmente milhões de mulheres foram levadas aos cinemas por seus namorados ou maridos (sem contar as prostitutas, levadas pelos cafetões) para aprender o que uma mullher poderia fazer para satisfazer um homem <u>se ela realmente quisesse</u>. Este valor instrutivo parece ter sido o principal motivo da popularidade do filme&#8230;<br />
<i>Ela está ali porque quer. Quem a está forçando? Olha só como ela sorri. Está vendo só como mulheres de verdade gostam disso?</i> 	 </p>
<p>Oito anos depois, Linda deu uma resposta, humilhante e dolorosa, para a pergunta em Ordeal (Provação), sua autobiografia. 	 </p>
<p>&#8230;Nora Ephron (&#8230;) ficou apavorada diante de uma cena (&#8230;) e conseguiu uma entrevista telefônica com Linda Lovelace. &#8220;Eu não tenho inibição alguma em relação ao sexo. Eu só espero que todo mundo que for ver o filme&#8230; perca um pouco das suas inibições&#8221;. 	 </p>
<p>E assim Nora escreveu um artigo que Linda fosse rainha do pornô por vontade própriae que vivesse feliz&#8230; Ela descreveu sua reação como sendo de uma &#8220;feminista puritana que perdera o senso de humor ao assistir um filminho de sacanagem&#8221;. 	 </p>
<p>O que ela não sabia era que Linda, mais tarde, incluiria esta resposta na lista das muitas ditadas por Chuck Traynor (seu marido) para ocasiões jornalísticas como aquela. Ele a castigava se mostrasse qualquer emoção inaceitável (quando, por exemplo, ela chorou ao ser currada por cinco homens, num quarto de hotel, fazendo com que um dos clientes se recusasse a pagá-la). Na verdade, ela fora espancada e estuprada tantas vezes e com tal regularidade que sofreu danos retais além de lesões permanentes às veias da perna. 	 </p>
<p>O que Nora não sabia era que Linda também escreveria a respeito de suas 3 tentativas de fuga e dos 3 retornos forçados a uma vida de servidão sexual&#8230; 	 </p>
<p>&#8230; O livro de Linda documenta mais de 2 anos de medo, sadismo e prostituição forçada. Traynor disse que as acusações de Linda eram &#8220;tão ridículas que eu não posso levá-las a sério&#8221;. Ele também disse que &#8220;quando eu comecei a sair com Linda ela era muito tímida, ficava chocada em ver um homem nu&#8230; <i>eu criei Linda Lovelace</i>&#8220;. 	 </p>
<p>O que Linda conta desta <i>criação</i> inclui uma arma apontada para a sua cabeça e ter de trabalhar vigiada através de um buraco na parede para que ela não escapasse e ter uma mangueira d&#8217;água enfiada no ânus se se recusasse a oferecer divertimentos tais como despir-se em restaurantes e para motoristas em auto-estrada. 	 </p>
<p>&#8230; Mas Linda conta ter recusado uma proposta de um milhão de dólares para estrelar um outro filme como Garganta Profunda. (Por esta filmagem, Linda recebeu mil e duzentos dólares que, como dinheiro ganho como prostituta, ela jamais viu.) &#8220;Eu não faria nada daquilo outra vez&#8221;, ela afirma. &#8220;Nem se me dessem 50 milhões de dólares&#8221;. 	 </p>
<p>Um outro motivo para escrever Ordeal&#8230; um cartão postal escrito por uma mulher que disse ter tido coragem de fugir depois de ver Linda na televisão. &#8220;As mulheres precisam que alguém lhes dê coragem para fugir, de alguém que lhes diga que <I>é</I> possível recobrar a auto-estima&#8221;&#8230; 	 </p>
<p>Ela diz que escapou fazendo Traynor acreditar que poderia confiar nela, um pouquinho mais a cada vez, até que foi deixada, sem vigias, num quarto de hotel, durante os ensaios para a versão teatral de <i>Linda Lovelace.</i> 	 </p>
<p>&#8230; Quando ela começou a dar suas próprias respostas para as perguntas e a tentar explicar os anos de coação, descobriu que os jornalistas tornavam-se relutantes em publicar suas palavras. Sua história era deprimente, não tinha nada de glamourosa ou excitante. Como ela havia passado de mão em mão como uma moeda sexual, às vezes entre homens famosos, havia também o medo de processos. 	 </p>
<p>Foi só 1978, ao ser entrevistada por Mike McGrady,(&#8230;) que sua história veio a público. Com o intuito de convencer um editor de que a história tinha credibilidade, ele a submeteu a um interrogatório de 11 horas com um detector de mentiras, realizado pelo ex-chefe de poligrafia da procuradoria de Nova York, um teste que incluiu um enorme número de detalhes e uma brutal reinquisição. Mesmo com esses resultados&#8230; diversas editoras recusaram o manuscrito. 	 </p>
<p>E assim nos perguntamos: será que um prisioneiro político, homem, contando uma história parecida, teria tanta dificuldade em ser acreditado? Ordeal ataca o mito do masoquismo feminino, que insiste em que as mulheres gostam de ser dominadas sexualmente e de sentir dor, muito embora a prostituição e a pornografia sejam indústrias construídas tendo este mito como base. 	 </p>
<p>Para divulgar seu livro, Linda vai ao programa de televisão de Phil Donahue&#8230; 	 </p>
<p>Ela descreve a sensação de isolamento, de ser controlada a tal ponto que não podia ir ao banheiro sem a permissão de Traynor.<i>Não tinha escolha. Podia ter acontecido com qualquer uma</i>. Ela diz isso simplesmente e repete inúmeras vezes, e afinala mensagem parece penetrar nas mentes de muitas mulheres presentes na platéia. Mas, no caso de algumas, a mensagem jamais penetra. Donahue continua a fazer perguntas sobre a sua infância, sobre a sua história pessoal. É como se ele estivesse perguntando &#8220;O que, na sua história pessoal, a levou a um campo de concentração?&#8221;. 	 </p>
<p>Ninguém pergunta como podemos parar de criar homens como o Chuck Traynor da descrição de Linda. Ou o que levou milhares de pessoas a assistir Garganta Profunda. 	 </p>
<p>&#8221;&#8221;&#8217;(A Verdadeira Linda Lovalace. in Steinem, Gloria. Memórias da Transgressão: Momentos da História da Mulher no século XX)&#8221;&#8221;&#8217;</p>
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		<title>&#8220;Se os homens menstruassem&#8221;, por Gloria Steinem</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Dec 2006 14:12:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Feminista</dc:creator>
				<category><![CDATA[Gloria Steinem]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[menstruação]]></category>

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		<description><![CDATA[Morar na Índia me fez compreender que a minoria branca do mundo passou séculos nos enganando para que acreditássemos que a pele branca faz uma pessoa superior a outra. Mas na verdade a pele branca só é mais suscetível aos raios ultravioleta e propensa a rugas.
Ler Freud me deixou igualmente cética quanto à inveja do [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=feminista.wordpress.com&blog=637095&post=3&subd=feminista&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Morar na Índia me fez compreender que a minoria branca do mundo passou séculos nos enganando para que acreditássemos que a pele branca faz uma pessoa superior a outra. Mas na verdade a pele branca só é mais suscetível aos raios ultravioleta e propensa a rugas.</p>
<p>Ler Freud me deixou igualmente cética quanto à inveja do pê-nis. O poder de dar à luz faz a &#8220;inveja do útero&#8221; mais lógica e um órgão tão externo e desprotegido como o pênis deixa os homens extremamente vulneráveis.</p>
<p>Mas ao ouvir recentemente uma mulher descrever a chegada inesperada de sua menstruação (uma mancha vermelha se espalhara em seu vestido enquanto ela discutia, inflamada, num palco) eu ainda ranjo os dentes de constrangimento. Isto é, até ela explicar que quando foi informada aos sussurros deste acontecimento óbvio, ela dissera a uma platéia 100% masculina: &#8220;Vocês deveriam estar orgulhosos de ter uma mulher menstruada em seu palco. É provavelmente a primeira coisa real que acontece com vocês em muitos anos!&#8221;</p>
<p><span id="more-3"></span></p>
<p>Risos. Alívio. Ela transformara o negativo em positivo. E de alguma forma sua história se misturou à Índia e a Freud para me fazer compreender finalmente o poder do pensamento positivo. Tudo o que for característico de um grupo &#8220;superior&#8221; será sempre usado como justificativa para sua superioridade e tudo o que for característico de um grupo &#8220;inferior&#8221; será usado para justificar suas provações. Homens negros eram recrutados para empregos mal pagos por serem, segundo diziam, mais fortes do que os brancos, enquanto as mulheres eram relegadas a empregos mal pagos por serem mais &#8220;fracas&#8217;. Como disse o garotinho quando lhe perguntaram se ele gostaria de ser advogado quando crescesse, como a mãe, &#8220;Que nada, isso é trabalho de mulher.&#8221; A lógica nada tem a ver com a opressão.</p>
<p>Então, o que aconteceria se, de repente, como num passe de mágica, os homens menstruassem e as mulheres não?</p>
<p>Claramente, a menstruação se tornaria motivo de inveja, de gabações, um evento tipicamente masculino:</p>
<p>Os homens se gabariam da duração e do volume.</p>
<p>Os rapazes se refeririam a ela como o invejadíssimo marco do início da masculinidade. Presentes, cerimônias religiosas, jantares familiares e festinhas de rapazes marcariam o dia.</p>
<p>Para evitar uma perda mensal de produtividade entre os poderosos, o Congresso fundaria o Instituto Nacional da Dismenorréia. Os médicos pesquisariam muito pouco a respeito dos males do coração, contra os quais os homens estariam, hormonalmente, protegidos<br />
e muito a respeito das cólicas menstruais.</p>
<p>Absorventes íntimos seriam subsidiados pelo governo federal e teriam sua distribuição gratuita. E, é claro, muitos homens pagariam mais caro pelo prestígio de marcas como Tampões Paul Newman, Absorventes Mohammad Ali, John Wayne Absorventes Super e Miniabsorventes e Suportes Atléticos Joe Namath — &#8220;Para aqueles dias de fluxo leve&#8221;.</p>
<p>As estatísticas mostrariam que o desempenho masculino nos esportes melhora durante a menstruação, período no qual conquistam um maior numero de medalhas olímpicas.</p>
<p>Generais, direitistas, políticos e fundamentalistas religiosos citariam a menstruação (&#8220;<i>men</i>-struação&#8221;, de <i>homem</i> em inglês) como prova de que só mesmo os homens poderiam servir a Deus e à nação nos campos de batalha (&#8220;Você precisa dar seu sangue para tirar sangue&#8221;), ocupariam os mais altos cargos (&#8220;Como é que as mulheres podem ser ferozes o bastante sem um ciclo mensal regido pelo planeta Marte?&#8221;), ser padres, pastores, o Próprio Deus (&#8220;Ele nos deu este sangue pelos nossos pecados&#8221;), ou rabinos (&#8220;Como não possuem uma purgação mensal para as suas impurezas, as mulheres não são limpas&#8221;).</p>
<p>Liberais do sexo masculino insistiriam em que as mulheres são seres iguais, apenas diferentes. Diriam também que qualquer mulher poderia se juntar à sua luta, contanto que reconhecesse a supremacia dos direitos menstruais (&#8220;O resto não passa de uma questão&#8221;) ou então teria de ferir-se seriamente uma vez por mês (&#8220;Você precisa dar seu sangue pela revolução&#8221;).</p>
<p>O povo da malandragem inventaria novas gírias (&#8220;Aquele ali é de usar três absorventes de cada vez&#8221;) e se cumprimentariam, com toda a malandragem, pelas esquinas dizendo coisas tais como:</p>
<p>— Cara, tu tá bonito <i>pacas</i>!<br />
— É cara, tô de <i>chico</i>!</p>
<p>Programas de televisão discutiriam abertamente o assunto. (No seriado <i>Happy Days</i>: Richie e Potsie tentam convencer Fonzie de que ele ainda é &#8220;The Fonz&#8221;, embora tenha pulado duas menstruações seguidas. <i>Hill Street Blues</i>: o distrito policial inteiro entra no mesmo ciclo.) Assim como os jornais, (TERROR DO VERÃO: TUBARÕES AMEAÇAM HOMENS  MENSTRUADOS. JUIZ CITA MENSTRUAÇÃO EM PERDÃO A ESTUPRADOR.) E os filmes fariam o mesmo (Newman e Redford em <i>Irmãos de Sangue</i>).</p>
<p>Os homens convenceriam as mulheres de que o sexo é <i>mais</i> prazeroso &#8220;naqueles dias&#8221;. Diriam que as lésbicas têm medo de sangue e, portanto, da própria vida, embora elas precisassem mesmo era de um bom homem menstruado.</p>
<p>As faculdades de medicina limitariam o ingresso de mulheres (&#8220;elas podem desmaiar ao verem sangue&#8221;).</p>
<p>É claro que os intelectuais criariam os argumentos mais morais e mais lógicos. Sem aquele dom biológico para medir os ciclos da lua e dos planetas, como pode uma mulher dominar qualquer disciplina que exigisse uma maior noção de tempo, de espaço e da matemática,<br />
ou mesmo a habilidade de medir o que quer que fosse? Na filosofia e na religião, como pode uma mulher compensar o fato de estar desconectada do ritmo do universo? Ou mesmo, como pode compensar a falta de uma morte simbólica e da ressurreição todo mês?</p>
<p>A menopausa seria celebrada como um acontecimento positivo, o símbolo de que os homens já haviam acumulado uma quantidade suficiente de sabedoria cíclica para não precisar mais da menstruação.</p>
<p>Os liberais do sexo masculino de todas as áreas seriam gentis com as mulheres. O fato &#8220;desses seres&#8221; não possuírem o dom de medir a vida, os liberais explicariam, já é em si castigo bastante.</p>
<p>E como será que as mulheres seriam treinadas para reagir? Podemos imaginar uma mulher da direita concordando com todos os argumentos com um masoquismo valente e sorridente. (&#8216;A Emenda de Igualdade de Direitos forçaria as donas de casa a se ferirem todos os meses : Phyllis Schlafy. &#8220;O sangue de seu marido é tão sagrado quanto o de Jesus e, portanto, sexy também!&#8221;: Marabel Morgan.) Reformistas e Abelhas Rainhas ajustariam suas vidas em torno dos homens que as rodeariam. As feministas explicariam incansavelmente que os homens também precisam ser libertados da falsa impressão da agressividade marciana, assim como as mulheres teriam de escapar às amarras da &#8220;inveja menstrual&#8221;. As feministas radicais diriam ainda que a opressão das que não menstruam é o padrão para todas as outras opressões. (&#8220;Os vampiros foram os primeiros a lutar pela nossa liberdade!&#8221;) As feministas culturais exaltariam as imagens femininas, sem sangue, na arte e na literatura. As feministas socialistas insistiriam em que, uma vez que o capitalismo e o imperialismo fossem derrubados, as mulheres também mens-truariam. (&#8220;Se as mulheres não menstruam hoje, na Rússia&#8221;, explicariam, &#8220;é apenas porque o verdadeiro socialismo não pode existir rodeado pelo capitalismo.&#8221;)</p>
<p>Em suma, nós descobriríamos, como já deveríamos ter adivinhado, que a lógica está nos olhos do lógico. (Por exemplo, aqui está uma idéia para os teóricos e lógicos: se é verdade que as mulheres se tornam menos racionais e mais emocionais no início do ciclo menstrual, quando o nível de hormônios femininos está mais baixo do que nunca, então por que não seria lógico afirmar que em tais dias as mulheres comportam-se mais como os homens se portam o mês inteiro? Eu deixo outros improvisos a seu cargo.*</p>
<p>A verdade é que, se os homens menstruassem, as justificativas do poder simplesmente se estenderiam, sem parar.</p>
<p>Se permitíssemos.</p>
<p><code><br />
— 1978<br />
* Meus agradecimentos a Stan Pottinger pelos muitos improvisos incluídos neste texto.</p>
<p>FONTE:<br />
STEINEM, Gloria. <i>Memórias da Transgressão</i>: momentos da história da mulher no século XX. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1997. p. 416-419.</code></p>
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